Professores, adolescentes...

e cotidiano escolar

A “crise” da adolescência,  na mesma medida que traz  um certo desconforto e sofrimento, tanto para quem a vive como para os adultos que convivem com estes jovens, é momento importante no processo da formação do adulto socialmente equilibrado e psicologicamente saudável. A  escola, enquanto agente socializador é co-responsável pela formação dessa pessoa, cabendo cuidar das relações que se dão no seu interior que possam potencializar a autonomia, a responsabilidade. ( cidadania).

E que ninguém pense que esta é uma tarefa fácil....

Os reflexos dessas transformações do adolescente no cotidiano escolar, aliados a  outros tantos fatores, contribuem para a deterioração da relação professor-aluno e a potencialização no dia a dia escolar da situação de indisciplina, desrespeito e violência.

Não há receitas, não há formas corretas e unificadoras  para levar nossos alunos adolescentes a se motivarem e se envolverem  com a sua aprendizagem.  Por que não há receitas? Porque o “ ofício de educador é complexo”   (Perrenoud) e não há como simplificar, descomplicar o que é complexo. O que se pode fazer é munir-se de recursos, de competências, que o professor vai construindo com embasamento teórico, mas também na sua prática que o deixe melhor preparado para enfrentar essa  complexidade.  Quando falo em embasamento teórico, estou falando da necessidade do professor aprofundar-se um pouco mais nas diversas teorias que explicam o processo de desenvolvimento  psicológico, cognitvo e emocional de seu aprendiz, assim como conhecer as principais teorias, visões e correntes  pedagógicas e   psicológicas. Paralelamente à aquisição desse embasamento, o professor precisa ter uma  prática reflexiva, por mais que isso lhe custe fazer no auge da urgência e dificuldade com que ele se depara a cada dia em sala de aula. Refletindo sobre sua prática individual e coletivamente, ele vai construindo competências para conseguir melhores resultados e sentir-se menos estressado e insatisfeito com seu ofício.

Alguns pontos para refletir sobre a relação  entre professores e adolescentes

  • Tentar entender a atitude do adolescente também do referencial dele e não apenas do seu referencial como adulto.

  • Evitar oferecer “munição para ele atirar” – o adolescente se fortalece no grupo e se sentirá incentivado a desafiar.

  • Negociar  conjuntamente regras e contratos, deixando  claro e explícito o papel de cada um. Negociando divide-se  poder e responsabilidade.

  • Tentar conhecer as representações e conhecimentos que os alunos têm a respeito de um assunto que se vai trabalhar em classe.

  • Perceber que  as causas da indisciplina têm várias origens, inclusive a própria estruturação do cotidiano escolar, que provoca a indisciplina, isto é, procurar pensar de forma “sistêmica”

  • Trocar experiências, socializar  vivências, inventar, improvisar, ser criativo.

  • Refletir sobre seus objetivos pessoais e profissionais. Onde o professor quer chegar e  que caminho deseja seguir.

  • Aceitar a complexidade e a natureza do trabalho de professor, não negar os sentimentos de medo, angústia, impotência, desânimo, o tédio e a rotina porque  negá-los não nos fará capazes de superá-los.

  • Pensar que se o aluno estiver envolvido em um projeto, ele investirá esforços para aprender. Procurar então, trabalhar com situações-problemas tiradas da  prática  social dos alunos.

  • Aceitar que você não se precisa saber sempre como agir de maneira correta e com rapidez. Muitas vezes, não entendemos uma situação. Procurar tomar distanciamento  para compreender melhor.

Segundo Guimarães Rosa, “ professor não é quem sempre ensina, mas quem de repente, aprende”. Assim, na sua  prática refletida, o professor  pode transformar desafios dificuldades e possíveis “erros” em importantes instrumentos para reflexão e mudança.
 

Maria da Graça da Silva Pedrosa, é Psicóloga e Pedagoga, tendo atuado no Magistério, Supervisão, Direção e Coordenação de escolas. Coordena projetos educacionais e atendimento psicológico junto a várias ONG's em São Paulo. Em seu consultório particular presta atendimento terapêutico, psicopedagógico, orientação de pais e vocacional, supervisão e acompanhamento escolar.

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atualizado/setembro/2007