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Uma breve retrospectiva
No início do século XX, já era evidente que as escolas não poderiam continuar
convivendo com relações pedagógicas tão autoritárias como as até então
existentes, herdadas de modelos pedagógicos absolutamente ultrapassados.
O que elas pressupunham?
Que a criança não passava de um homúnculo com todas as habilidades e
competências de um adulto sendo, portanto, responsável pelo seu processo de
aprendizagem. Para essas velhas teorias, o centro da aprendizagem era o
professor, o rei-sol , onisciente, e os alunos, passivos e mudos, deveriam
gravitar ao seu redor. A disciplina em sala de aula deveria ser mantida a
qualquer preço e os castigos físicos, a palmatória, a genuflexão sobre o milho,
bem como as humilhações psicológicas, as famosas orelhas de burro colocadas no
aluno que ia mal, imitavam as relações autoritárias e anti-democráticas
existentes entre o poder e os seus súditos, assim como entre pais e filhos. Este
clima de terror era coroado com a famosa reprovação. O bom professor, pasmem,
era aquele que reprovava muitos alunos e a escola, bem como o professor eram
eximidos de qualquer responsabilidade pelo fracasso escolar. Esse comportamento
punitivo chegava mesmo às raias do exagero de reprovar um aluno por um simples
décimo, inviabilizando, muitas vezes, toda a vida escolar futura de um jovem ou
de uma criança. Mais do que se sentir rei-sol, isto certamente consolidava no
professor um sentimento quase divino de poder dispor, a seu bel prazer, do
destino de seus alunos, que se tornavam joguetes nas mãos do acaso.
Como uma concepção tão às avessas sobrevivera durante séculos? Ora, para todos
aqueles que leram o livro “O Nome da Rosa” de Umberto Ecco, ou assistiram ao
filme do mesmo nome, a explicação é clara. O saber era propriedade de uma
pequena elite que queria tornar o acesso ao mesmo o mais difícil e inóspito
possível. Afinal, como o livro bem mostra, saber é poder. A melhor forma de
atingir tal objetivo, isto é, afastar a massa ignara do saber, era tornar a
escola insuportável e inatingível, tratando o aluno da forma mais rígida
possível, desestimulando-o da aventura do conhecimento reservada a uns poucos.
A partir do início do século XX, com o fim das monarquias européias, a adoção de
modelos democráticos de governo nos países ocidentais, o impacto do
desenvolvimento industrial e urbano que levou a um enorme crescimento da classe
média e do proletariado, as classes dirigentes foram obrigadas a aceitar o
compromisso de democratização da informação e do saber, proposto já desde a
Revolução Francesa. Nesse processo, a escola passa a desempenhar um papel
fundamental, principalmente para os grupos mais pobres da população que só terão
condições de acesso ao saber sistematizado, através dos serviços públicos
ofertados pelo Estado no papel de compensador das desigualdades sociais.
No decorrer do século, a concepção de escola do passado começa a ruir, a ser
demolida, violentamente, graças a diferentes contribuições científicas. Foram os
avanços da Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, da Neurologia, da
Epistemologia Genética, da Pedagogia Moderna, do Sócio Construtivismo que
mostraram, com enorme ênfase, que a aprendizagem das crianças tem
características próprias, diferente da dos adultos; que o processo de
aprendizagem é progressivo e cumulativo e nem sempre ocorre de forma linear, mas
sim por saltos; e que o medo e a passividade não geram aprendizagem inteligente,
ao contrário, são seus inimigos.
Assim, ao modelo de relação pedagógica autoritário, elitista e excludente, até
então existente, irá contrapor-se um radicalmente novo, onde o ser que aprende -
o aluno - passará a ser o centro do processo de aprendizagem que deverá
estimular a participação, atividade, pesquisa e comportamento crítico.
Importantes educadores e estudiosos contribuíram para a sua construção. Vale
lembrar aqui: Montessori, Decroli, Freinet, Dewey, Piaget, Wallon, Anísio
Teixeira, Bourdieu e Passeron, Ana Maria Poppovic, Paulo Freire, Emília Ferreiro
entre vários outros. Propõem eles uma escola democrática marcada por relações
pedagógicas de inclusão, troca, respeito e estimulação. O aluno deve ser
respeitado, suas características bio-psico-sociais consideradas no processo de
planejamento, desenvolvimento e avaliação do ensino. Ao professor é atribuído o
importante papel de mediador, facilitador do processo de aprendizagem, isto é, o
de criar as condições necessárias e adequadas de exposição e apropriação do
conhecimento pelos alunos. O papel do professor não será menos importante do que
era no passado, mas implicará maior responsabilidade: zelar e garantir a
aprendizagem do educando. Não basta ensinar. Condição necessária à função do
professor será a de levar o aluno a aprender. Da mesma forma, a direção escolar
e o sistema de supervisão do ensino passarão a ser solidariamente responsáveis
com o professor pela garantia de aprendizagem das crianças e jovens.
Logo após a segunda guerra mundial, vários países se deram conta da necessidade
urgente de adotar um novo modelo de educação e mudar radicalmente a cultura da
escola. Independente das dificuldades do pós-guerra, rompem com o modelo
anterior e adotam o sistema de progressão continuada da aprendizagem para melhor
assegurar a permanência com sucesso das crianças na escola e a formação de
cidadãos críticos e criativos. Esta mudança tem algumas premissas básicas
fundamentadas nas ciências modernas. São elas:
- o ser humano, desde o início de sua vida, apresenta ritmos e estilos
significativamente diferentes para realizar toda e qualquer aprendizagem –
andar, falar, brincar, comer com autonomia, ler, escrever, etc;
- toda aprendizagem, inclusive a cognitiva, é um processo contínuo, que
ocorre em progressão e não pode nem deve ser interrompida ou sofrer
retrocessos, pois isto implica prejuízos enormes, tanto no que respeita à
auto-imagem do aprendiz como na sua motivação para aprender;
- toda criança normal, sem traumas ou problemas mentais, quando exposta a
situações motivadoras de ensino, é capaz de aprender e avançar em relação a
seus padrões anteriores de desempenho;
- aprendizagens cognitivas exigidas pela escola podem ocorrer com maior ou
menor rapidez em função das características e estimulação dos ambientes
sociais de onde as pessoas provêm;
- o desempenho cognitivo e acadêmico de
crianças e jovens de diferentes extratos sociais tende a atingir, nos
anos iniciais de escolaridade, patamares médios bastante semelhantes, se
respeitadas as dificuldades e obstáculos iniciais dos alunos, e
garantida a aprendizagem continuada com reforço e orientação para
aqueles com maiores dificuldades.
De acordo com esta nova filosofia educacional torna-se, por exemplo,
inadmissível à escola, ao final de um ano escolar, ou melhor, de meros 10 meses,
considerar um aluno como inepto total porque não aprendeu o que era "idealmente"
esperado, num intervalo de tempo teoricamente "ideal". Ela exige respeito aos
diferentes ritmos de aprendizagem, característica própria dos seres humanos.
Será impossível, pois, para a nova escola, aceitar a concepção do passado de que
o aluno deve ser reprovado, se não dominou bem divisão, mesmo que tenha
aprendido tudo em português, ciências, história e geografia. Para o novo modelo
de escola, existe uma incompatibilidade total, uma conciliação impossível entre
as idéias de respeito ao educando de Paulo Freire ou a de aprendizagem
sócio-construída de Emilia Ferreiro com a prática escolar existente de que caso
o aluno fosse reprovado, toda aprendizagem feita por ele durante aquele ano era
praticamente desconsiderada, “apagada” de sua memória e depois refeita no ano
seguinte, como se esse aluno fosse uma peça defeituosa numa linha de montagem
industrial mecanizada e uma vez rotulado "repetente", o aluno passava a
personificar o fracasso. No ano seguinte, era apontado como mau exemplo para os
outros alunos da classe e, afastado pelos professores, sentava-se no fundo da
sala. Assim estigmatizado, acabava acreditando neste papel e virando um fracasso
real. Muitas vezes tinha apenas 8 ou 9 anos.
Durante todo o século passado, educadores ilustres nos legaram uma literatura
educacional abundante mostrando que um aluno assim humilhado, desrespeitado e
cognitivamente estuprado, passaria a comportar-se ou como um pequeno robot,
amedrontado e passivo de quem a escola altera o crescimento intelectual de forma
perversa, ou como um marginal revoltado que, saudavelmente, para proteger sua
auto-estima agride e abandona esta escola que personaliza o mais odioso tipo de
autoritarismo.
No entanto, este modelo totalmente questionado já no início do século XX - por
valorizar o medo, o sofrimento, a humilhação, o fracasso - era muito apreciado e
aplicado na chamada “boa” escola brasileira dos anos 50. Ele, certamente, foi um
dos maiores responsáveis pelo fato chocante, que parece não fazer parte da
memória dos educadores e dos meios de comunicação de massa, de que o Brasil, nos
anos 50, tinha somente 36% da população de 7 a 14 anos na escola. A tão
propalada boa escola de antigamente era aquela em que a maioria ficava fora e a
que ficava dentro fracassava em massa. Perdas de 60% ou mais (evasão e
reprovação) eram consideradas absolutamente normais. E parece existir um pouco
de cinismo quando, atualmente, nos admiramos com as altas taxas de analfabetismo
da população brasileira com 40 anos ou mais. Precisamos, no Brasil, ter coragem
de examinar o passado, sem saudosismos elitistas. Parece-me oportuno
parafrasear, aqui, o educador português Rui Canário que recentemente esteve em
São Paulo num congresso educacional e que numa entrevista dada ao jornal O
Estado de São Paulo (em 29/09/00) afirmou: “as pessoas criticam a educação hoje
achando que ela foi melhor um dia”. Concordo com ele. Com as informações que
temos hoje, só é possível defender que aquele modelo de escola excludente do
passado era bom por desinformação ou má fé.
Nas três últimas décadas do século XX, a população brasileira “arrombou” as
portas da escola. O crescimento das matrículas foi estrondoso. No entanto, por
mais esforços que alguns educadores tenham feito, haverá muita dificuldade em
mudar a cultura dessa escola elitista, autoritária, herdada do século XIX e
serão usados todos os subterfúgios e práticas para afastar os alunos do acesso
ao saber. A mais avassaladora delas será a reprovação, esta sim, o instrumento
por excelência a serviço da ignorância e da exclusão social. Em relação ao
acesso ao saber pode mesmo ser comparada aos fornos crematórios do III Reich.
Nos idos dos anos 80, foram abundantes os estudos e pesquisas mostrando os
efeitos perversos e pouco producentes da reprovação. Sergio Costa Ribeiro,
físico e ilustre pesquisador, precocemente afastado de nós, produziu alguns dos
trabalhos mais significativos na área denunciando que o acesso finalmente
conseguido pela população nas escolas públicas era enganoso, pois a soma das
taxas de evasão e reprovação continuavam tão altas quanto às dos anos 50. A
diferença, dizia ele, é que, agora, ao invés de milhares, eram milhões de
alunos, ano a ano, sistematicamente afastados das escolas. Os estudos de Ribeiro
mostraram, com clareza, que a evasão era o sub-produto das múltiplas repetências
a que as crianças e jovens eram submetidos, ou seja, eles denunciavam que 50% da
população escolar abandonava, evadia-se da escola depois de ter ficado de 6 a 8
anos “estacionada” na segunda ou terceira série do ensino fundamental e que de
cada 100 crianças, menos de 10 completavam o ensino fundamental em 8 anos. É
possível acreditar que toda a população escolar deste país estivesse retardada
mentalmente frente à escola? Ainda em 1995, mais da metade de toda população
brasileira de 7 anos era reprovada na primeira série. Nenhum outro país
miserável da América Latina tinha estatísticas tão perversas. Entretanto,
convivíamos cínica e tranqüilamente com essa situação de perdas enormes de
auto-estima nacional, de capital humano e financeiro que deprimiam cada vez mais
a situação educacional do país.
É inacreditável que este país tenha uma parte de sua elite tão cega e tão pouco
criteriosa, incapaz de reconhecer os estragos desastrosos que esse modelo
provocou e sua responsabilidade na "fuga à educação" e marginalização de grandes
contingentes populacionais.
Os anos 80 e 90 também foram férteis em pesquisas sobre o rendimento escolar dos
alunos associadas a um conjunto enorme de variáveis escolares e
sócio-econômicas. Tive o privilégio, como pesquisadora universitária e
professora doutora na área de currículo e avaliação, de participar de vários
delas, juntamente com pesquisadoras ilustres como Ana Maria Poppovic, Bernardete
Gatti, Guiomar Namo de Mello. Pesquisas com alunos das escolas públicas
mostravam em São Paulo, bem como em outros Estados do Brasil, que a maioria
deles, a cada repetência, ia tendo um desempenho cada vez pior, em decorrência
das situações desestimuladoras a que eram submetidos e da diminuição
significativa da sua auto-confiança como aprendiz. A maior parte das pesquisas
na área apontava também que fatores como a duração do período escolar, a
assiduidade dos professores, a existência de materiais didáticos na sala, a
presença de coordenadores pedagógicos, bem como a garantia de aulas sistemáticas
de recuperação, eram fatores muito mais determinantes no desempenho bem sucedido
dos alunos.
Entretanto, raras vezes, ocorreu às elites ou administradores que dirigiam o
sistema educacional, questionar o sistema secular de reprovação. Afinal, se ela
fosse tão boa, já deveríamos ser um país de sábios. Somente na rede estadual
paulista, no início da década de 90, cerca de 1.5 milhões de alunos, a cada ano,
eram expulsos ou fracassavam na escola. Desde o final dos anos 80, os índices de
evasão haviam atingido patamares absurdamente altos. E isto ocorria no mais rico
e pujante Estado da América Latina, onde cerca de 90% dos professores já tinham
formação universitária. Imagine a exclusão que ocorria no resto do país. E
contraditoriamente, ficamos chocados com os atuais índices de violência e
miséria do país, sem parecer ou querer nos dar conta de quanto tem contribuído
para estes índices o modelo de escola que exclui e violenta seus alunos, com o
qual temos convivido quase sem questionamento.
Vale a pena, porém, lembrar algumas tentativas feitas no Brasil, já no final do
século passado, para superar este quadro calamitoso. Em 1968, o emérito
professor da USP, liberal e democrata, José Mario Pires Azanha, colaborando com
Ulhoa Cintra, na Secretaria da Educação, implanta pela primeira vez no Brasil,
no curso primário das escolas estaduais paulistas, os chamados nível I e II, ou
seja, a passagem da primeira para a segunda série sem reprovações, assim como da
terceira para a quarta séries. Estávamos no apagar das luzes de um período
democrático e, por coincidência, o Gabinete cai por ser considerado subversivo.
Em 1984, respirando os novos ares de democracia, o Governador Montoro implanta o
ciclo básico nas escolas estaduais paulistas, no que é imitado por outros
Estados, inclusive Minas Gerais. O objetivo? Dar à criança a possibilidade de
completar sem retrocessos seu processo de alfabetização. Há resistência dos
professores que acreditam perder a autoridade por não poder reprovar criancinhas
de sete anos e o Governo não dá continuidade ao processo de ciclos, como
propusera inicialmente. No início dos anos 90, já com a consolidação
democrática, a administração da educação municipal dirigida por Paulo Freire
introduz, semelhante ao que pretendia Montoro, o sistema de 3 ciclos no ensino
fundamental das escolas da capital paulista, o que também ocorre em várias
outras capitais. A política de introdução dos ciclos surge e se fortalece nos
raros momentos de democracia que tem ocorrido neste país. Talvez isto justifique
o seu atraso. Acredito que essas eminentes figuras que propuseram a aprendizagem
em progressão continuada por ciclos não são passíveis de serem identificadas
como demagogos ou malandros como tentam alguns fazer parecer.
Os desafios do século XXI
Nos últimos anos do século XX, sob o impacto das enormes mudanças
ocorridas na sociedade, do avanço da tecnologia e meios de comunicação de massa,
da constatação cada vez mais óbvia de que a sociedade do futuro será a do
conhecimento e que este determinará a riqueza das nações, é promulgada uma nova
Lei de Diretrizes e Bases Nacionais (LDB) aprovada em 1996, sob a inspiração do
educador Darcy Ribeiro. A nova LDB foi exaustivamente debatida pela sociedade e
trouxe os primeiros ventos de modernização e real democratização para o sistema
educacional brasileiro recebendo a aprovação do Congresso Nacional, das
entidades de classe e de todos os diferentes partidos políticos.
É, portanto, na LDB de 1996, que já estão inscritas e garantidas as diferentes
formas de organização do ensino que ampliam as possibilidades de avanço e
respeito à aprendizagem dos alunos. É nela que está claramente proposta a
aprendizagem em progressão continuada na forma de ciclos. Lá estão apontadas,
também, as formas de fazê-lo com sucesso: ampliação da jornada escolar, a
recuperação paralela e contínua dos alunos com dificuldades de aprendizagem, as
horas de trabalho coletivo remunerado do professor para avaliação e capacitação;
a proposta de esquemas de aceleração de aprendizagem para alunos
multirrepetentes com grande defasagem idade-série; além do direito à
reclassificação de estudos para todos aqueles que conseguiram aprender
independentemente da freqüência às escolas. É uma lei revolucionária, que
buscava provocar enormes mudanças no sistema educacional brasileiro, na medida
em que refletia o espírito de seu patrono: criar condições de acesso ao
conhecimento para toda a população, o que até então a escola brasileira fora
incapaz de fazer.
No caso específico de São Paulo, em 1996, durante o período de discussão da LDB,
algumas de suas propostas já começaram a ser postas em prática. Assim, desde o
início de 1996 foram garantidas na rede estadual paulista algumas condições
básicas para a melhoria do ensino, ou seja, ampliação da jornada escolar de 720
horas para 1000 horas para 90% dos alunos do diurno, e para 800 horas no período
noturno; duas novas modalidades de recuperação paralela para todos os alunos com
dificuldades de aprendizagem, ou seja, tanto a semanal, de 3 horas fora do
horário regular de aulas, para corrigir deficiências prematuramente, como ao
final do ano, no mês de janeiro, com 100 horas de duração, para os alunos
faltosos ou com maiores dificuldades. Ao lado dessas medidas, foi instituído
para todos os professores o pagamento de horas de trabalho na escola, porém fora
da sala de aula, para capacitação e orientação sobre reforço escolar. Para que
isto ocorresse, todas as escolas passaram a contar com um ou dois coordenadores
pedagógicos, antiga reivindicação do magistério, de modo a acompanhar o trabalho
dos professores juntamente com as Oficinas Pedagógicas, órgãos descentralizados
de capacitação. O trabalho das Oficinas foi enriquecido, a partir de 1997, com
os resultados do sistema de avaliação do rendimento escolar (SARESP) feito por
instituições externas à administração, que serviram de suporte e tomada de
decisão para os investimentos da ordem de 30 milhões de reais em cursos de
capacitação de professores ofertados pelas Universidades paulistas.
Tais medidas foram provocando quedas drásticas nas taxas de evasão, deixando
claro que os alunos e suas famílias percebiam quando valia a pena ficar na
escola porque o aluno tinha maiores chances de se recuperar, ter sucesso e
aprender.
Foi somente no início de 1998, que o Conselho Estadual de Educação, em função
das mudanças ocorridas, propôs a adoção para o sistema de ensino paulista
público e privado, da aprendizagem em progressão continuada. A proposta só
abrangia o ensino fundamental cujos oito anos deveriam ser organizados em dois
ciclos, com reprovações ocorrendo ao final de qualquer ano escolar, apenas no
caso de faltas em excesso ou abandono da escola. Enfatizava, o Conselho
Estadual, a importância de avaliações freqüentes e contínuas da aprendizagem
para embasar as aulas de recuperação paralela ou nas férias. Ao final dos dois
ciclos, caso o aluno apresentasse problemas de aprendizagem, deveria ficar
retido mais um ano no ciclo para um cuidadoso trabalho planejado de recuperação.
Essa proposta que é a atual, objetiva garantir às crianças paulistas a
possibilidade de sucesso na escola e o respeito ao seu desenvolvimento
intelectual e emocional.
No entanto, por que a organização da escola em ciclos assusta e ameaça alguns
setores da sociedade?
A organização seriada, da escola que tínhamos, não levava a maioria dos alunos a
aprender. As críticas à escola eram contundentes e as perdas fantásticas. A quem
incomoda esta mudança? Em nome de quem e quais subterfúgios ainda serão usados
para atacar o sistema de ciclos?
É preciso concordar, em primeiro lugar, que causa estranheza o fato de que a
idéia de fazer uma criança continuar aprendendo, progredindo de onde parou, que
é o normal para toda e qualquer aprendizagem, só na escola é encarada como uma
aberração. Por que será que isto ocorre? Por que demanda uma sistemática mais
trabalhosa, detalhada, cuidadosa e criteriosa de avaliação? Certamente.
A Secretaria Estadual de Educação, no entanto, desde 1984, ou seja, desde a
introdução do ciclo básico, havia desenvolvido uma série de instrumentos,
publicações, fichas detalhadas, programas de TV e vídeo – consubstanciados no
famoso projeto Ipê – para auxiliar escolas e professores na avaliação,
acompanhamento e recuperação dos alunos. Pode-se questionar se no passado
existiam condições para esse tipo de avaliação. Porém, desde 1996 elas existem.
São os horários de recuperação paralela semanal e ao final do ano. São as horas
de trabalhado remuneradas do professor na escola, mas fora da sala de aula. É a
jornada ampliada em 40% para a maioria dos alunos, bem como a capacitação dos
professores feita pelas Universidades e escolhida pela própria Diretoria de
Ensino e suas escolas
Por que quando o aluno multirrepetente ficava vários anos estacionado numa mesma
série ninguém se incomodava? Será por que era mais fácil camuflar o fato de que,
após 5 ou 6 anos de passagem pela escola, ninguém havia, com seriedade, se
responsabilizado pela aprendizagem desse aluno? Ora, haviam sido responsáveis
pelo menos 5 professores, um diretor, um vice-diretor, um coordenador
pedagógico, um supervisor da escola, três a quatro assistentes pedagógicos da
Oficina Pedagógica local e um dirigente regional de ensino, que tem sob sua
responsabilidade, em média, umas 70 escolas públicas. Um pequeno exército e o
aluno era culpado e penalizado pelo fracasso. A culpa sempre acabava sendo da
vítima.
O ciclo desvela a incompetência da escola e do sistema para ensinar que a
reprovação mascarava. Ele não permite mais a punição unilateral, ele impede a
farsa “professor finge que ensina e aluno não aprende porque não é capaz”. A
progressão continuada exige, portanto, melhor trabalho coletivo da escola para
garantir o sucesso dos alunos. Por quê?
O sistema seriado, com repetência ano a ano, pressupõe o trabalho do professor
com classes homogêneas, pois se o aluno for repetente, o professor "zera" tudo o
que aprendeu no ano anterior e parte do princípio de que, naquela série, todos
são iguais, ou seja, ninguém conhece nada do conteúdo. Essa homogeneização
artificial facilita o planejamento das aulas. Na progressão continuada, no
início do ano, o professor precisa levar em conta o que todos já aprenderam,
examinar melhor as avaliações que recebeu, as fichas de acompanhamento e saber
organizar os alunos em diferentes grupos, com a noção de que, alguns deverão ser
mais estimulados e reforçados para conseguirem alcançar um desempenho médio.
Isto obriga todos: professores, diretor, coordenadores a organizarem, com mais
critério, o planejamento pedagógico e as aulas de recuperação. Entretanto, os
resultados compensam os esforços demandados.
Na reprovação, a marca do fracasso é do aluno, na progressão continuada em
ciclos, a marca do fracasso é da escola, do trabalho do professor, da
organização do sistema de ensino que tem de ser avaliado, questionado, revisado
e repensado nos seus pontos frágeis. A cada final de ano, ou o aluno conseguiu
avançar mais, aprender, ou foi a escola que ficou para trás.
É este o caminho que precisamos buscar e que devemos ter coragem de trilhar. Ser
capaz de enfrentar o velho e ultrapassado mito de que a reprovação em si é boa e
lutar por uma escola que seja capaz de ensinar e não simplesmente de excluir.
Com as informações que possuímos atualmente, continuar com o discurso e a
prática antiga de reprovar e culpar o aluno é, no mínimo cômodo, para não dizer
imoral.
Finalmente, a quem interessa atribuir ao sistema de ciclos a idéia de caos e
aumento da violência na escola? Aos professores? Certamente não. Os educadores,
hoje, já sabem muito bem que o domínio do medo e o fantasma da reprovação podem
facilitar o controle da disciplina em classe de um ou outro professor cujas
aulas são desinteressantes e não motivadoras, mas de nenhuma forma garantem a
aprendizagem. Além disso, no ensino médio, onde estudam os adolescentes e
adultos nas faixas etárias mais velhas, o sistema de ciclos e progressão
continuada não foi instituído. Entretanto, a grande queda nas taxas de evasão,
ocorrida a partir de 1996, possibilitou a freqüência à escola dos jovens das
camadas mais pobres da população, que anteriormente estavam fora dela condenados
à marginalidade, droga, violência e criminalidade. A escola hoje tem que
enfrentar essa nova realidade. Ela hoje está inserida num contexto de maior
violência social. Além de aceitar o desafio de ensinar, a parcela de excluídos
que, até recentemente, nem sequer adentrava suas portas, a escola hoje se depara
com uma juventude cada vez mais livre, autônoma e independente, que as próprias
famílias têm dificuldade de educar.
Vale lembrar que nestes últimos 5 anos ocorreu, em São Paulo, um fenômeno
inédito no país. Enquanto a rede particular de ensino médio, inexplicavelmente,
parou de crescer, estacionou, ficando ao redor de 300 mil alunos, a rede pública
estadual cresceu cerca de 1 milhão de alunos, atingindo 2 milhões e 200 mil
alunos no ano 2000. A rede estadual cresceu 3 redes particulares de ensino médio
em 5 anos. O que facilitou essa explosão e mesmo concorrência com a rede
privada? Não foi somente o aumento de vagas, a maior garantia de acesso.
Certamente foram decisivas algumas modificações introduzidas de 1996 em diante,
como a recuperação nas férias e a matrícula por disciplina. A matrícula por
disciplina possibilitou, por exemplo, a um jovem reprovado em duas disciplinas
não ter que refazer aquelas nas quais fora aprovado. No ano seguinte ele avança
e só refaz as duas nas quais teve desempenho insatisfatório. É um sistema
semelhante ao que ocorre nas universidades. O fato dos jovens não se sentirem
reprovados, já em setembro, por dificuldades encontradas em uma ou outra
disciplina e saberem que poderiam contar com a recuperação nas férias de janeiro
para melhorar o seu desempenho nelas e aumentar suas chances de sucesso, foi
fundamental para mantê-los na escola, bem como aproximá-los da mesma.
Conseqüentemente, a taxa de evasão na rede estadual caiu de 25% para 12%,
tornando-se a mais baixa do país.
Talvez alguns até considerem que este jovem, mesmo trabalhando o dia todo e
estudando à noite, não seja tão bom quando comparado com aqueles poucos que
estudavam só no diurno (até porque não existia curso noturno público) naquela
“boa” escola “pública” do passado, de quase 100 anos atrás, que era paga por
muitos e usufruída só por uns poucos. Mas, por mais que interesse a alguns
setores desqualificar nosso jovem, ele é extremamente melhor do que os milhões
de jovens que na sua idade, ainda em passado recente, estavam fora de qualquer
escola e nem sequer tinham chances de estudar e enfrentar a odiosa exclusão
social deste país.
Quaisquer que sejam os medos e fantasmas das elites e seus prepostos, não é mais
possível conviver com o modelo de escola e ensino que herdamos do passado. O
século XXI exige uma nova escola – inclusiva, dinâmica e radicalmente diferente
- que além de transmitir o conhecimento, tenha como papel primordial
possibilitar uma socialização e o respeito mútuo, o desenvolvimento de valores
éticos e a solidariedade, principalmente do nosso jovem, exposto hoje a uma
sociedade muito mais competitiva e individualista. Na escola, ele também
aprenderá o saber socialmente sistematizado, embora no futuro, graças à
tecnologia moderna, ele poderá até fazer a opção de aprendê-lo, de forma
inteligente, à distância, fora da escola. Conseqüentemente, a escola, assim como
o professor, principalmente o da escola pública, terão de abandonar a posição de
arautos do fracasso. Como qualquer bom médico, que é o que cura todos os seus
pacientes, ou um bom advogado, que é o que ganha todas as causas dos seus
clientes, o professor terá que rechaçar rapidamente a posição de que só é bom se
reprovar, ou seja, se não for capaz de fazer aquilo que dele se espera e para o
qual foi preparado – ensinar. Uma postura assim elitista e antidemocrática não
terá mais lugar no século XXI e se levada às últimas conseqüências poderá, de
forma antropofágica ser, lamentavelmente, o próprio fim da escola e da
profissão. Essas são mudanças de cultura, de postura, difíceis de serem
ultrapassadas devido ao teor altamente ideológico e emocional que possuem, pois
implica em perda de poder. Mas elas devem ocorrer, com urgência, se quisermos
preparar nossos jovens para o novo século. Já estamos com uns 100 anos de
atraso. Resta ter coragem para deixar de usar a escola como instrumento de
elitização e exclusão do saber. Resta não ter medo do desafio de ensinar os
excluídos que estão chegando na escola. Resta acreditar com Rui Canário em que
“a idade de ouro da educação ainda está por vir“. E isto vale principalmente
para nós, no Brasil, que, só agora, conseguimos colocar a totalidade de nossas
crianças e jovens nas escolas.
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