Resumo:
O artigo se
configura num percurso de releitura dos registros reflexivos –
relatórios sobre as idas a campo durante a pesquisa
sócio-antropológica e sobre a feitura de pães e cartas
pedagógicas – que evidenciaram o ofício docente em uma escola
pública da rede estadual do estado do Rio grande do Sul. A
partir do entendimento dos conceitos de encanto e compromisso,
foi ancorada a delicada tarefa de tecer as contribuições do
registro ao processo de formação permanente, o qual caracterizou
a feitura educativa realizada pelo corpo docente.
Palavras chaves: formação permanente,
pesquisa sócio-antropológica, encanto comprometido.
Abstract
Reminiscence of an education that transforms – Back to the
waters that move us on to a popular education.
The article configures itself into a way of rereading reflexive records
- records about out-doors done during a social-anthropologic
research and about a mode of making breads and pedagogic letters
– that made evident an academic profession in a public school of
Rio Grande do Sul. From understanding concepts of enchant and
obligation was anchored the delicate task to comment the
contribution from register to a process of permanent formation
which distinguished the education realized by the academic
board.
Key words: permanent formation, social-anthropologic
research, enchant under obligation.
Dejeme decirle a riesgo de parecer ridiculo que
el verdadeiro revolucionario es animado por fuertes sentimientos
de amor. Es impossible pensar un revolucionario autentico, sin
esta cualidad. (GUEVARA, Che, 1967, p.637-38 apud FREIRE,
Paulo, 2000, p.79-80).
Partilhamos a
seguir um pouco das histórias educativas com as quais nos vemos
envolvidas a algum tempo numa escola da rede pública estadual da
cidade de Canoas. Nossa partilha foi cunhada a muitas mãos, o
que nos remete à compreensão de que a concretude que a seguir
desenvolveremos é resultado da ousadia sonhada por um grupo
encantadamente comprometido com a educação que transforma homens
e mulheres, crianças e jovens.
Trazer à tona nossa experiência faz com que rememoremos o sonho
que acalentamos pela educação. A educação que nos leva em sonhos
é a que inquieta pela sua incompletude, lança-se à procura de um
mundo real, vivido; que se sustenta em ser uma pesquisante à
procura de respostas e assim se reconstrói em outras perguntas.
A educação com a qual continuamos a sonhar é encharcada de
humildade e de esperança na busca ímpar de amar o gosto que a
vida tem.
Sonhamos com a educação que educa na inclusão de nenhum a
menos e no respeito à diferença de seus sujeitos, pois nos
encaminha à reconstrução de uma sociedade mais justa, mais
democrática, fraterna, que transcende a deformação da
antieticidade e a consciência ingênua do mundo, mesma quando
tropeça, vibra, chora, ri, pois compreende que avança
dialeticamente.
Educar e ser educado/educada, assim, é viver na ousadia de ações
responsáveis, no presente de um futuro em que os sonhos
possíveis se tornem inéditos, viabilizados quotidianamente.
Palmear a educação sonhada foi e vem sendo o que percorreu
nossos movimentos educativos desde a inserção de nossa escola à
pesquisa sócio-antropológica, pois na utopia possível vimo-nos
rodeadas de possibilidades e concretudes. Nossa ousadia em
anunciá-la com o pressuposto da educação pública da rede
estadual vem, talvez, se configurando como o passo mais alargado
que nossa trajetória de supervisoras-docentes vivenciou.
Nossa coragem
em percorrer os documentos reflexivos como relatórios de ida a
campo (pesquisa sócio-antropológica), registro da feitura de
pão, e pensar educação e nas cartas pedagógicas acalenta a
responsabilidade da denúncia e do anúncio freireano.
Cansadas da denúncia dos desencantos e descompromissos de uma
educação
“que está mudando para ser a mesma” (GENTILI e ALENCAR, p.18), focalizamos a
investigação da realidade como componente importante do fazer e
do pensar o currículo escolar para educandos e educandas das
classes populares, como contribuição importante à formação
permanente de educadores e educadoras.
Para alcançar esse sonho, que não foi possível em mergulho
único, pois em nada teve a ver com um tempo determinado,
imediato, mas com um tempo intenso, de ações plasmadas no
encanto de um compromisso com a educação que transforma,
continuamos nos movimentando ora ensinado, ora aprendendo...
Nossa utopia ancora a idéia de que é preciso reconstruir o
processo de formação de educadores e educadoras com uma prática
permanente para a transformação
social-histórica-cultural-educativa das classes populares.
Conquistar essa utopia, a partir do olhar de supervisoras
educacionais, foi o que nos lançou à inquietação de investigar
os processos que se impuseram.
Com essa
intenção, percorremos o que fazemos e o que ainda é possível
avançar em busca do sonho possível, o sonho partilhado por
companheiros educadores e companheiras educadoras. Percorremos,
além disso, os movimentos mobilizadores desse sonho na expressão
concreta do registro reflexivo do processo de formação
permanente contido em documentos docentes – relatórios e cartas
pedagógicas.
As informações de análise contidas nos relatórios e cartas
pedagógicas, pouco a pouco, corroboraram que a arquitetura
docente, na direção dos ensinamentos freireanos na alquimia da
reflexão, fosse se configurando.
A idéia que acompanhou os companheiros e
companheiras à reconstrução curricular inserida no terreno da
proposta libertadora, inicialmente, traduziu-se em ações de
certa forma unilaterais, tendo como ponto de partida o
reconhecimento da realidade da comunidade. Conhecer essa
realidade, dessa forma, necessitou do proposto freireano: “se eu
estou interessado em conhecer o processo de pensamento das
pessoas e os níveis de percepção, então, as pessoas têm de
pensar sobre seus pensamentos e não serem somente objetos de meu
pensamento” (FREIRE, 1972, p.2). A surpresa, o receio, o
constrangimento e o sentimento de invasão favoreceram a
compreensão de que investigar a realidade era movimento de duas
mãos, devendo nele estar implícito o gesto contínuo de interação
com os sujeitos no próprio estudo – quem pesquisa e quem é
pesquisado.
A vivência de tais circunstâncias provocou o
enfrentamento de situações-limite na ação de estar vivendo a
pesquisa sócio-antropológica. Remeteu à reflexão sobre o que
estava mobilizando o grupo docente em torno da idéia de
continuidade à imersão na realidade da comunidade escolar.
Remeteu, também, aos motivos que mobilizaram educadores e
educadoras a saírem das salas de aula e descerem as escadas em
direção às casas de educandos e educandas. Justificar aos pais e
mães o porquê de estar nas ruas do bairro, nas portas de suas
casas foi alternativa para diminuir a distância historicamente
construída entre escola e família. Foi também o primeiro
movimento de encanto comprometido com a imersão no mundo vivido
pelos educandos e educandas. Essa iniciativa junto às famílias
favoreceu uma relação de pertencimento e familiaridade com as
mesmas, um fortalecimento do propósito da ida a campo.
Instaurou-se, então, um novo diálogo com a comunidade a partir
da (re)leitura de sua realidade, na fidelidade com a proposta de
conhecer o mundo vivido pelos educandos e educandas. Diálogo
simples entre pessoas que assumiam a transformação de uma
educação possível.
A
denúncia da realidade enxergada, denúncia
incrédula do mundo vivido fortaleceu a compreensão de que não
era mais possível voltar atrás para ser o mesmo educador, a
mesma educadora de antes. Remeteu à compreensão de que educar a
partir da realidade, indo até ela, foi ir além do próprio
conceito. Foi mergulhar nela e a partir dela também educar-se.
Foi, ainda, educar na contramão de uma a-educação que se
alimentava de discursos conformistas; que desconhecia a
realidade e o contexto em que estavam inseridos os sujeitos da
ação; que mesmo indo ao encontro dela, desencontravam-se, por
não recriá-la, pois se apropriavam dela na ânsia de conquistar,
e, invadindo-a, não se deixavam invadir.
Ir a campo,
realizar a pesquisa sócio-antropológica foi aprendizagem de
leitura de mundo, marcou a necessidade do anúncio da
libertação das amarras curriculares, pois a denúncia do mundo
que estava sendo visto pedia intervenção, um anúncio das
possibilidades de transformação.
Percorrer o
desafio aventureiro de uma educação humanizadora, sem as
antigas amarras curriculares, das receitas prontas, que não mais
comportava o determinismo da prática era necessário.
Presenciou-se a desconfiança e o estranhamento de uma ação
educativa que não tinha direções, que norteavam ou suleavam
(FREIRE, 2001, p.49-50) o seu destino. A incredulidade de uma
ação educativa assim, possível e melhor, gerou a inquietação:
será que vai dar liga?
Para esse grupo
docente fugir de estados de impossibilidades, de desequilíbrios
da certeza da prática foi transposição difícil. Contudo,
inaugurou o conhecimento como potencialidade de transformação do
próprio cotidiano educativo, ratificando, assim, a experiência
responsável e mobilizadora como fonte mediadora de aprendizagem,
de libertação do que a amarrava à prática tradicional. Incorrer
na certeza da inconclusão de um mundo e ter a certeza incerta da
prática fortaleceu o encanto comprometido com as ações
educativas transformadoras feitas no quotidiano da própria
docência.
A racionalidade
de um mundo que insiste em viver o binarismo de um tempo vivido
contra um tempo cronológico assume dimensões perigosas, pois
captura a ação de estar sendo vivido para imediatamente ser
vivido - uma supremacia do tempo chrónos sob o tempo
kairós. O perigo desse binarismo, ou mesmo de império de um
sobre o outro, encontra-se no sentimento de não ser competente
para o ofício de uma docência humanizadora. Nesta perspectiva,
ratificamos a compreensão de que a educação transformadora tem
como missão criar, entre as pessoas, vínculos sociais que tenham
a sua origem no próprio desenvolvimento do ser, na construção de
espaços de socialização e na elaboração de um projeto social em
comum: a criação de tempos de existência solidários, tendo como
aliado o encanto comprometido com a sua sintonia e
fruição.
A educação
pretendida, como horizonte de possibilidades, encontrou-se
diretamente ligada à humildade de assumir-se, com o entendimento
da tensão entre a ação e a reflexão sobre o que estava sendo
feito no quotidiano educativo. O encanto comprometido com
o mundo a ser descoberto e aprendido foi o que provocou a
coragem de compreender o processo de inconclusão vivido e
reconstituído no próprio movimento, sobretudo, na coerência pela
diminuição da distância entre o dito e o feito.
Os companheiros
e companheiras refletiram sobre o perigo de percorrer uma
prática educativa metamorfoseada, ou seja, o perigo de cair num
estado em que não tão convicto ou convicta do encanto e do
compromisso, a ação pudesse assumir ares de transformação, sem
ao menos saber o que transformar. Estar em estado de alerta
contra esse perigo reportou-os e reportou-as aos sonhos
políticos como tática para a compreensão dos limites e das
possibilidades da ação educativa. Então, com a convicção dos
próprios sonhos, o grupo docente, utilizou-se da paciência
impaciente como alternativa para a reinvenção da educação como
parte do encanto comprometido com a reinvenção do mundo.
A responsabilidade do anúncio das possibilidades de uma
outra educação possível inaugurou a transgressão contra o
conteudismo da
a-educação. Configurou-se, a partir de situações de
aprendizagem que problematizaram a função social da educação,
revelando os limites de um conhecimento que regula e privilegia
o poder de uns e umas sob os outros e outras. Nesse contexto de
transição curricular transformadora, a necessidade de decisão
frente à prática começou a problematizar a linearidade das
disciplinas de conhecimento em que a superação de um
conhecimento
conteudista, envolto de palavras ocas, mantinha a
neutralidade perante um mundo vivido.
Educar na
compreensão dos limites e da radicalização da transformação da
educação e do mundo foi reassumir que mudar continuava sendo
possível. Educar a partir do mundo vivido pelas suas
educandas e educandos, ouvindo, discutindo, indagando-os e
indagando-as foi a ressignificação da ação de ir a campo, de
continuar os fundamentos instaurados na pesquisa
sócio-antropológica; foi avançar nas construções de redes, de
temas e conceitos, criando conhecimento e acreditando no próprio
oficio; foi, além disso, recriar a responsabilidade de todos e
todas por um mundo inclusivo.
Aceitar os
limites da transformação, radicalizando-se, sem sectarismo, é
transpor a barreira da verdade única e imposta. Compreender os
limites, portanto, é radicalizar-se na ascensão de um mundo que
está sendo, portanto, indeterminado. Tais movimentos mobilizaram
as companheiras e os companheiros docentes a avançar no
encanto comprometido com a formação permanente num ato
rigoroso de leituras, de indagações de si e de mundo.
O testemunho da
autoria de ações que indicavam pequenas conquistas vem sendo
alternativa para continuar na luta pela transformação.
Refugiar-se, não em impossibilidades, mas nas possibilidades da
ação que estava sendo feita, no partejo das novas experiências
educativas, encaminhou à compreensão da realidade,
responsabilizando o grupo docente na continuidade da luta pelos
sonhos possíveis.
A quietação com o movimento transformador foi ocorrendo na
medida em que a renovação das aprendizagens impunha outras
inquietações, em que a materialização da ousadia e do prazer na
concretude do sonho possível viabilizava-se.
Interpretar os
processos que encaminharam ao currículo transformador, diante da
necessidade de não deixar adormecer o encanto e o compromisso,
reafirmou o agir e o pensar uma educação que, ao se transformar,
transformou os sujeitos envolvidos. Esse processo implicou
surpresas, como a desconstrução de rótulos sobre a consciência
da própria história de homem e mulher humilde.
Os diferentes
estágios reafirmaram a intencionalidade na transformação.
Todavia, foi preciso continuar a estabelecer relações com o
mundo vivido e a consciência sobre o que se faz, para que o faz,
como o faz, é ir fazendo para refazer.
Os companheiros
e as companheiras mostraram, ao longo de suas idéias, a
importância de agir e de pensar a partir da participação de um
processo docente inserido no contexto da transformação
curricular, da responsabilidade de avançar os próprios
conhecimentos.
O grupo docente mostrou, ainda, estar envolvido em uma
compreensão de mundo, de conhecimento, de prática que se
transformava, não pronta, mas construída, partilhada, aprendida,
na possibilidade educativa de avançar rumo à conquista da
escola, da educação e do mundo sonhados coletivamente.
Educar contra a
racionalidade implicou fortalecimento de um amor-armado contra a
construção da racionalidade de exclusão que se inscreveu
historicamente e ainda se inscreve na vida de homens e mulheres.
Sem amor - num
desamor - seria impossível viver a plenitude da vida, muito
menos da educação. Desamor não é condição humana. Amar o
processo em que foi sujeito foi solidarizar e humanizar-se, foi
estar encantado e comprometido e encantada e comprometida,
amando armadamente. Um amor-armado de luta pelos direitos do
outro e da outra, um jeito rigoroso que provocou aos nossos
colegas a continuarem movimentando-se em experiências educativas
molhadas pelo diálogo com seus educandos e suas educandas, com
seus colegas e suas colegas, com o mundo. Educar nessas
dimensões vem sendo inverter a lógica do lucro, para que homens
e mulheres possam assumir a humanização do mundo, na forma da
sua solidariedade. Neste sentido, a educação que vem sendo
proposta legitima o direito dos excluídos e das excluídas em
serem mais, encontrando na compreensão cidadã o conhecimento que
autoriza não só as classes populares, mas toda a sociedade na
provocação por um outro mundo possível.
Tecemos a
convicção de que o registro do agir e pensar o ofício docente se
configura como potência pedagógica importante para a experiência
formadora do desenvolvimento de atitudes cognitivas assumidas
criticamente (FREITAS, 2000, p.43), pois levou-nos a “observar,
comparar, selecionar, estabelecer relações entre fatos e coisas”
(FREIRE, 2002, p.83). Exercitar esta capacidade a partir do
registro da própria vivência, todavia, não vem se esgotando no
puro ato de fixar com pormenores o observado tal qual se deu,
significa ir muito além, arriscar-se a fazer observações
críticas e avaliativas sem emprestar ares de certeza (p.68).
Viver esta experiência, entrelaçando-a com o movimento coletivo
de formação permanente, como supervisoras educacionais
pesquisadoras, fortaleceu a luta pelo sonho de reinvenção da
educação pública e popular. Esse fortalecimento, entretanto, é
gestado na compreensão de que a ação de supervisora não é
isolada, mas parceira docente e como tal não é a ela creditado
os avanços e recuos, mas a todo o coletivo de companheiros e
companheiras docentes em transformação.
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FREITAS, Ana Lúcia Souza. Pedagogia da
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