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Pouca coisa é tão cercada por
equívocos, em nossa escola básica, quanto a questão da reprovação escolar,
que se perpetua como um traço cultural autoritário e anti-educativo.
Começa pela abordagem errônea de avaliação na qual se
sustenta. Em toda prática humana, individual ou coletiva, a avaliação
é um processo que acompanha o desenrolar de uma atividade, corrigindo-lhe os
rumos e adequando os meios aos fins. Na escola brasileira isso não é
considerado. Espera-se um ano inteiro para se perceber que tudo estava
errado. Qualquer empresário que assim procedesse estaria falido no primeiro
ano de atividade. E mais: em lugar de corrigir os erros, repete-se tudo
novamente: a mesma escola, o mesmo aluno, o mesmo professor, os mesmos
métodos, o mesmo conteúdo... É por isso que a realidade de nossa escola não
é de repetentes, mas de multirrepetentes.
Absurdo semelhante ocorre quando se trata de
identificar a origem do fracasso. A atividade pedagógica que se dá na
escola supõe um quase infindável conjunto de atividades, de recursos, de
decisões, de pessoas, de grupos e de instituições, que vão desde as
políticas públicas, as medidas ministeriais, passando pelas secretarias de
educação e órgãos intermediários, chegando à própria unidade escolar em que
se supõem envolvidos o diretor, seus auxiliares, a secretaria, os
professores, seu salário, suas condições de trabalho, o aluno, sua família,
os demais funcionários, os coordenadores pedagógicos, o material didático
disponível etc. etc. Mas, no momento de identificar a
razão do não aprendizado, apenas um elemento é destacado: o aluno. Só
ele é considerado culpado, porque só ele é diretamente punido com a
reprovação. Como se tudo, absolutamente tudo, dependesse apenas dele, de seu
esforço, de sua inteligência, de sua vontade. Para que, então, serve a
escola?
Essa pergunta, aliás, vem bem a propósito da forma equivocada e
anti-científica como se concebe o ensino tradicional ainda dominante entre
nós. Apesar de a Didática ter reiteradamente demonstrado a completa
ineficiência do prêmio e do castigo como motivações para o aprendizado
significativo, ainda se lança mão generalizadamente da ameaça da reprovação
como recurso pedagógico. Segundo esse hábito, revelador, no mínimo, da total
ignorância dos fundamentos da ação educativa, à escola compete apenas passar
informações, ameaçando o aluno com a reprovação caso ele não estude. Daí a
grita de professores, pais e imprensa de modo geral contra a retirada da
reprovação na adoção dos ciclos, afirmando que, livre da ameaça da
reprovação, o aluno não se motiva para o estudo. Ignoram que a verdadeira
motivação deve estar no próprio estudo que precisa ser prazeroso e desejado
pelo aluno.
Nisso se resume o papel essencial da escola: levar o
aluno a querer aprender. Este é um valor que não se adquire
geneticamente; é preciso uma consistente relação pedagógica para
apreendê-lo. Sem ele, o aluno só estuda para se ver livre do estudo,
respondendo a testes e enganando a si, aos examinadores e à sociedade.
Mas defender a retirada da reprovação não significa
apoiar “reformas” demagógicas de secretarias de educação com a finalidade de
maquiar estatísticas. Essa prática, embora coíba o vício reprovador, nada
mais acrescenta para a superação do mau ensino. Com isso, o aluno
que, após reiteradas reprovações, abandonava a escola, logo nas primeiras
séries, agora consegue chegar às séries finais do ensino, mas continua quase
tão analfabeto quanto antes. A diferença é que agora ele passa a incomodar
as pessoas, levando os mal informados a porem a culpa pelo mau ensino na
progressão continuada. Mas o aluno deixa de aprender,
não porque foi aprovado, mas porque o ensino é ruim, coisa que vem
acontecendo desde muito antes de se adotar a progressão continuada.
Apenas que, antes, esse mesmo aluno permanecia na primeira série, ou se
evadia, tão ou mais analfabeto que agora. Mas aí era cômodo, porque ele
deixava de constituir problema para o sistema de ensino. Agora, com a
aprovação, percebe-se a reiterada incompetência da escola.
Só a consciência desse fato deveria bastar como motivo para se eliminar de
vez a prática da reprovação no ensino básico: porque ela tem servido de
álibi para a secular incompetência da escola que se exime da culpa que é
dela e do sistema que a mantém. A reversão dessa
situação exige que o elemento que estrutura a escola básica deixe de ser a
reprovação para ser o aprendizado. É preciso
reprovar, não os alunos, para encobrir o que há de errado no ensino e
isentar o Estado de suas responsabilidades, mas as
condições de trabalho, que provocam o mau ensino e impedem o alcance de um
direito constitucional.
Vitor
Henrique Paro é titular em Educação pela Usp. Foi professor titular
nos cursos de graduação e pós-graduação em Educação da Puc-SP e pesquisador
sênior da Fundação Carlos Chagas. Atualmente é professor titular no
Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação da Faculdade de
Educação da Usp, onde exerce a docência e a pesquisa na graduação e na
pós-graduação.
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