1. CREDENCIAIS DOS AUTORES:
Alda Judith Alves Mazzotti é bacharel licenciada em Pedagogia, bacharel em
Psicologia, Psicóloga, mestre em Educação, doutora em Psicologia da
Educação, professora titular de Psicologia da Educação da Faculdade de
Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e leciona a disciplina
de Metodologia da Pesquisa em cursos de graduação e pós-graduação desde
1975. Outras obras:
ALVES-MAZZOTTI, Alda J., (1994). Do trabalho à rua: uma análise das
representações sociais produzidas por meninos trabalhadores e meninos de
rua. In Tecendo Saberes. Rio de Janeiro: Diadorim-UFRJ / CFCH.
_________ .
(1996). Social representations of street children, resumo publicado nos
Anais da Terceira Conferência Internacional sobre Representações Sociais,
realizada em Aix-em- Provence.
Fernando Gewandsznajder é licenciado em Biologia, mestre em Educação,
mestre em Filosofia e doutor em Educação pela Faculdade de Educação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Outras obras:
GEWANDSZNAJDER, Fernando. O que é o método científico. São Paulo:
Pioneira,1989.
_________. A
aprendizagem por mudança conceitual: uma crítica ao modelo PSHG.
Doutoramento em Educação. Faculdade de Educação da UFRJ, 1995
2. RESUMO DA OBRA:
O livro
é constituído de duas partes, cada uma delas sob a responsabilidade de um
autor, traduzindo sua experiência e fundamentação sobre o método
científico, em abordagens que se complementam.
Na primeira parte,
GEWANDSZNAJDER discute, em quatro capítulos, o método nas ciências
naturais, apresentando conceitos básicos como o da lei, teoria e teste
controlado.
No capitulo inicial há uma visão geral
do método nas ciências naturais e um alerta sobre a não concordância
completa entre filósofos da ciência sobre as características do método
científico. Muitos concordam que há um método para testar criticamente e
selecionar as melhores hipóteses e teorias. Neste sentido diz-se que há um
método cientifico, em que a observação, a coleta dos dados e as
experiências são feitas conforme interesses, expectativas ou idéias
preconcebidas, e não com neutralidade. São formuladas teorias que devem
ser encaradas como explicações parciais, hipotéticas e provisórias da
realidade.
O segundo capítulo
trata dos pressupostos filosóficos do método científico, destacando as
características do positivismo lógico, segundo o qual o conhecimento
factual ou empírico deve ser obtido a partir da observação, pelo método
indutivo, bem como as críticas aos positivistas, cujo objetivo central era
justificar ou legitimar o conhecimento científico, estabelecendo seus
fundamentos lógicos e empíricos.
A partir das críticas à
indução, o filósofo Karl Popper (1902- 1994) construiu o racionalismo
crítico, sua visão do método cientifico e do conhecimento em geral,
dizendo que ambos progridem através de conjecturas e refutações, sendo que
a tentativa de refutação conta com o apoio da lógica dedutiva, que passa a
ser um instrumento de crítica.
Apoiados em sua visão da
história da ciência, Thomas Kuhn ( 1922- 1996) , Lakatos e Feyerabend,
entre outros, criticam tanto Popper quanto os indutivistas, alegando que
sempre é possível fazer alterações nas hipóteses e teorias auxiliares
quando uma previsão não se realiza.
Kuhn destaca o conceito
de paradigma como uma espécie de “teoria ampliada”, formada por leis,
conceitos modelos, analogias, valores, regras para a avaliação de teorias
e formulação de problemas, princípios metafísicos e “exemplares”. Tais
paradigmas orientam a pesquisa cientifica; sua força seria tanta que
determinaria até mesmo como um fenômeno é percebido pelos cientistas, o
que explica por que as revoluções cientificas são raras: em vez de
abandonar teorias refutadas, os cientistas se ocupam com a pesquisa
cientifica orientada por um paradigma e baseada em um consenso entre
especialistas.
Nos períodos chamados de
“Revoluções Cientificas”, ocorre uma mudança de paradigma; novos fenômenos
são descobertos, conhecimentos antigos são abandonados e há uma mudança
radical na prática cientifica e na “visão de mundo” do cientista.
A partir do final dos
anos sessenta, a Escola de Edimburgo, defende que a avaliação das teorias
cientificas e seu próprio conteúdo são determinados por fatores sociais.
Assume as principais teses da nova Filosofia da Ciência e conclui que o
resultado da pesquisa seria menos uma descrição da natureza do que uma
construção social.
O terceiro capítulo busca estimular uma reflexão crítica sobre
a natureza dos procedimentos utilizados na pesquisa cientifica. Destaca
que a percepção de um
problema deflagra o raciocínio e a pesquisa, levando-nos a formular
hipóteses e a realizar observações.
Importantes descobertas
não foram totalmente casuais, nem os cientistas realizavam observações
passivas, mas mobilizavam-se à procura de algo, criando hipóteses ousadas
e pertinentes, o que aproxima a atividade cientifica de uma obra de arte.
Visando apreender o
real, selecionamos aspectos da realidade e construímos um modelo do objeto
a ser estudado. Mas isto não basta: há que se enunciar leis que descrevam
seu comportamento. O conjunto formado pela reunião do modelo com as leis e
as hipóteses constitui a teoria cientifica.
A partir do modelo, que
representa uma imagem simplificada dos fatos, pode-se corrigir uma lei,
enunciando outra mais geral, como ocorreu com Lavoisier, que estabeleceu
os alicerces da química moderna.
No quarto capitulo,
GEWANDSZNAJDER conclui a primeira parte da obra, comparando a ciência a
outras formas de conhecimento, mostrando que tal distinção nem sempre é
nítida e, que aquilo que atualmente não pertence à ciência, poderá
pertencer no futuro.
Apresenta críticas a
áreas cujos conhecimentos não são aceitos por toda a comunidade
cientifica, como: paranormalidade, ufologia, criacionismo, homeopatia,
astrologia.
Na maioria das vezes, o
senso comum, formado pelo conjunto de crenças e opiniões, limita-se a
tentar resolver problemas de ordem prática.
Assim, enquanto
determinado conhecimento funcionar bem, dentro das finalidades para as
quais foi criado, continuará sendo usado. Já o conhecimento cientifico
procura sistematicamente criticar uma hipótese, mesmo que ela resolva
satisfatoriamente os problemas para os quais foi concebida. Em ciência
procura-se aplicar uma hipótese para resolver novos problemas, ampliando
seu campo de ação para além dos limites de objetivos práticos e problemas
cotidianos.
Na segunda parte do livro, Alves-Mazzotti discute a questão
do método nas ciências sociais, com ênfase nas metodologias qualitativas,
analisando seus fundamentos. Coloca que não há um modelo único para se
construir conhecimentos confiáveis, e sim modelos adequados ou inadequados
ao que se pretende investigar e que as ciências sociais vêm desenvolvendo
modelos próprios de investigação, além de propor critérios para orientar o
desenvolvimento da pesquisa, avaliar o rigor dos procedimentos e a
confiabilidade das conclusões que não prescindem de evidências e
argumentação sólida.
O capítulo cinco
analisa as raízes da crise dos paradigmas, situando historicamente a
discussão sobre a cientificidade das ciências sociais. Enfatiza fatos que
contribuíram para estremecer a crença na ciência, como os questionamentos
de Kuhn, nos anos sessenta, sobre a objetividade e a racionalidade da
ciência e a retomada das críticas da Escola de Frankfurt, referentes aos
aspectos ideológicos da atitude cientifica dominante.
Mostra que os argumentos
de Kuhn, relativos à impossibilidade de avaliação objetiva de teorias
cientificas, provocaram reações opostas, a saber: tomados às ultimas
conseqüências, levaram ao relativismo, representado pelo “vale tudo” de
Feyerabend e pelo construtivismo social da Sociologia do Conhecimento. De
outro lado, tais argumentos foram criticados à exaustão, visando indicar
seus exageros e afirmando a possibilidade de uma ciência que procure a
objetividade, sem confundi-la com certeza.
E ainda, diversos
cientistas sociais, mobilizados pelas críticas à ciência tradicional
feitas pela Escola de Frankfurt, partindo de outra perspectiva, procuravam
caminhos para a efetivação de uma ciência mais compromissada com a
transformação social.
Em tal contexto, adquirem
destaque nas ciências sociais, os modelos alternativos ao positivismo,
como a teoria crítica, expondo o conflito entre o positivismo e a visão
dialética. Esgotado o paradigma positivista, adquire destaque, na década
de setenta, o paradigma qualitativo, abrindo espaço para a invenção e o
estudo de problemas que não caberiam nos rígidos limites do paradigma
anterior.
A discussão contemporânea
propõe compromisso com princípios básicos do método cientifico, como
clareza, consenso, linguagem formalizada, capacidade de previsão, conjunto
de conhecimentos que sirvam de guia para a ação(modelos).
A análise das posições
indica flexibilização dos critérios de cientificidade, preocupação com
clareza do discurso cientifico permitindo crítica fundamentada, explicação
e não apenas descrição dos fenômenos.
O capítulo seis
apresenta aspectos relativos ao debate sobre o paradigma qualitativo
na década de oitenta.
Inicialmente caracteriza
a abordagem qualitativa por oposição ao positivismo, visto muitas vezes de
maneira ingênua.
Wolcott denuncia a
confusão na área, Lincoln e Guba denominam o novo paradigma de
construtivista e Patton capta o que há de mais geral entre as modalidades
incluídas nessa abordagem, indicando que seguem a tradição compreensiva ou
interpretativa.
Na Conferência dos Paradigmas Alternativos, em 1989, são
apresentados como sucessores do positivismo:
-
Construtivismo Social, influenciado pelo
relativismo e pela fenomenologia, enfatizando a intencionalidade dos
atos humanos e privilegiando as percepções. Considera que a adoção de
teorias a priori na pesquisa turva a visão do observado.
-
Pós – positivismo - Defende a adoção do
método científico nas ciências sociais, preferindo modelos
experimentais com teste de hipóteses, tendo como objetivo último a
formulação de teorias explicativas de relações causais..
-
Teoria Crítica, onde o termo assume, pelo
menos, dois sentidos distintos: (1)Análise rigorosa da argumentação e do
método; (2)Ênfase na análise das condições de regulação social,
desigualdade e poder.
Os teóricos – críticos enfatizam o papel da ciência na transformação da
sociedade, embora a forma de envolvimento do cientista nesse processo de
transformação seja objeto de debate. Ao contrário dos construtivistas e
dos pós-positivistas, questionam a dicotomia objetivo/subjetivo,
implicando oposições, declarando que esta é uma simplificação que, em
vez de esclarecer confunde. Para eles subjetividade não é algo a ser
expurgado da pesquisa, mas que precisa ser admitido e compreendido como
parte da construção dos significados inerente às relações sociais que se
estabelecem no campo pesquisado. Tem que ser entendida como sendo
determinada por múltiplas relações de poder e interesses de classe, raça
gênero, idade e orientação sexual. Conceito que deve ser discutido em
relação à consciência e às relações de poder que envolvem tanto o
pesquisador como os pesquisados.
Como organizador da
citada conferência, Guba retratou as ambigüidades, confusões e
discordâncias existentes, visando estimular a continuação das discussões.
A diferença entre as três posições reside na ênfase atribuída e,
especialmente, nas conseqüências derivadas dessas questões:o papel da
teoria, dos valores e a subdeterminação da teoria.
Na prática, observa-se
com freqüência a coexistência de características atribuídas a diferentes
paradigmas.
No capítulo sete
estuda-se o planejamento de pesquisas qualitativas, discutem-se
alternativas e sugestões, acompanhadas de exemplos que auxiliam o
planejamento e desenvolvimento de pesquisas.
Ao contrário das
quantitativas, as investigações qualitativas não admitem regras precisas,
aplicáveis a uma infinidade de casos, por sua diversidade e flexibilidade.
Diferem também quanto aos aspectos que podem ser definidos no projeto.
Enquanto os pós-positivistas trabalham com projetos bem detalhados, os
construtivistas sociais defendem um mínimo de estruturação prévia,
definindo os aspectos referentes à pesquisa, no decorrer do processo de
investigação.
Para a autora, um projeto
de pesquisa consiste basicamente em um plano para uma investigação
sistemática que busca uma compreensão mais elaborada de determinado
problema.
Seja qual for o paradigma
em que está operando, o projeto deve indicar: o que se pretende
investigar; como se planejou conduzir a investigação; porque o estudo é
relevante.
Encerrando a obra, o
capítulo oito trata da revisão da bibliografia, destacando dois aspectos
pertinentes à pesquisa: (1) análise de pesquisas anteriores sobre o mesmo
tema e ou sobre temas correlatos; (2) discussão do referencial teórico.
Sendo a produção do conhecimento uma construção coletiva da comunidade
científica, o pesquisador formulará um problema, situando-se e analisando
criticamente o estado atual do conhecimento em sua área de interesse,
comparando e criticando abordagens teórico-metodológicas e avaliando o
peso e confiabilidade de resultados de pesquisas, identificando pontos de
consensos, controvérsias, regiões de sombra e lacunas que merecem ser
esclarecidas. Posicionar-se-á quanto ao referencial teórico a ser
utilizado e seguirá o plano estabelecido.
O Método Científico parte 2 |