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Tudo se ilumina quando o aluno de Educação Inclusiva
assiste a documentários e filmes que estabelecem uma ponte entre o
que eles já ouviram falar e o que podem ver sobre necessidades
especiais; sobre o trabalho de profissionais
comprometidos/envolvidos com o desempenho de todos os seus alunos,
suas competências e habilidades, bem como os resultados das ações
amplamente planejadas e desenvolvidas com entusiasmo e
responsabilidade. Podem, também, comparar alguns procedimentos com
outros que, eventualmente, não obtiveram sucesso, analisando as
causas e refletindo sobre as conseqüências.
Filmes como A História de Peter, produção americana
de 1992, mostram diretamente as ações do aluno com Síndrome de Down
em uma escola regular, interagindo numa sala de aula e no ambiente
escolar. Peter aprende muito, não apenas no relacionamento com os
colegas, mas no que diz respeito aos conteúdos desenvolvidos em sala
de aula.
Para evitar equívocos, há que se realizar a análise em
conjunto de películas que tratem de inclusão, sempre com a
indispensável mediação do professor. Por exemplo, assistir ao filme
O Milagre de Anne Sullivan, analisado detalhadamente mais
adiante, é ter acesso ao caso mais famoso de inclusão social
de uma pessoa cega e surda. Esse filme mostra o magnífico trabalho
da educadora à época, bem como sua função individual e, de certa
forma, datada, contratada que foi pela família de Helen Keller.
Riquíssimo quanto ao conteúdo, a metodologia não pode ser seguida em
sala de aula, no entanto, o filme como um todo embasa consistente
discussão sobre grandes temas existenciais e as possibilidades de
aprendizagem de qualquer pessoa. O valor do filme é inestimável,
sobretudo se considerarmos que Helen Keller ainda vivia na época da
filmagem e distribuição da película, o que lhe confere um ar de
biografia.
Há ainda o aspecto maravilhoso de conferir atualidade ao
cotidiano de outrora e estabelecer uma ponte entre gerações
distantes, com usos, costumes e possibilidades muito diferentes dos
atuais.
Assistir a esses filmes/documentários pode, até, provocar
um desconforto inicial, mas, apesar do incômodo, desperta o desejo
de trabalhar de maneira diferenciada, pois eles mostram que há
condições de obter sucesso; que vale a pena cultivar a paciência e o
olhar diferenciado, bem como o trabalho comprometido com a
aprendizagem, pois há respostas positivas e estas fazem toda a
diferença na vida das pessoas com necessidades especiais. A
inexperiência do estudante encontra fontes de inspiração em tais
películas, que os auxiliam a analisar assuntos tão complexos,
acabando por se constituir em suas primeiras experiências com
Educação Inclusiva.
A importância da utilização dos filmes como instrumentos
didático-pedagógicos em sala de aula pode ser avaliada a partir
dos
efeitos, encantos, desejos que as imagens e sons trabalhados
despertam nos alunos, uma vez que a imagem, seja ela qual for,
possibilita a desconstrução, a construção, a contextualização e a
relativização quando associada ao cotidiano das pessoas. Mais ainda
quando se trata do cotidiano de sala de aula de professores
iniciantes.
O
Milagre de Anne Sullivan
Importantíssimo filme, que fez sucesso nos cinemas no
início da década de 1960, baseado na história verídica de Helen
Keller, ainda viva à época. O tema continua bastante atual: a
inclusão social da pessoa com necessidades especiais, bem como a
resistência da família e o valor inestimável do educador consciente,
lúcido, competente para o sucesso desse processo educativo.
Anne Sullivan e Helen Keller
Helen Adams Keller era uma linda menina loura, americana
(de Tuscumbia, Alabama, EUA), que nasceu normal, bastante
inteligente, em 27 de junho de 1880, mas teve uma febre muito alta
aos dezoito meses de idade e, apesar de socorrida pelo médico da
família, apresentou seqüelas: cegueira e surdez. De família rica e
tradicional do Sul dos Estados Unidos, filha do Capitão Arthur
Keller, que, em 1885, foi Prefeito de Alabama do Norte, morava numa
bela e enorme casa, com seus pais e um meio irmão mais velho por
parte de pai. O Capitão Keller estava casado a com a mãe de Anne,
uma mulher bem mais jovem, bonita e inteligente, com quem teve
outros filhos além da primogênita Helen.
Esperta, apesar de cega e surda, o que a tornava, também,
muda, Helen infernizava a vida familiar, reivindicando para si toda
a atenção da mãe, que muito a defendia, mas não colocava limites
para suas ações, pois tinha muita pena desta filha, outrora tão
vivaz e comunicativa, que se revoltava com sua condição de
incapacidade de expressão, o que a excluía do mundo, quer como
ambiente de beleza e estímulos sonoros e visuais, quer como ambiente
de interação sociocultural.
O pai desejava internar Helen em um asilo do Estado para
deficientes mentais, no entanto, devido à insistência da esposa, que
diz estar disposta a trazer a filha de volta à interação com os
familiares, o Capitão Keller concorda em escrever pedindo auxílio
para seus amigos, que indicam a Escola Perkins para Cegos, em
Boston, que à época obtinha bons resultados em educação especial.
Em tal instituição trabalha o protetor de Anne Sullivan, jovem
professora de vinte e um anos que lá havia estudado, em decorrência
da cegueira que apresentara quando criança, da qual conseguira
recuperar-se mediante nove operações. Anne Sullivan aceita atender
Helen Keller. Antes de partir para seu trabalho, Anne Sullivan
recebe várias orientações, no sentido de que seja humilde, pois vai
precisar do afeto das pessoas que a estão contratando.
A jovem professora empreende uma longa viagem de trem até
chegar a Tuscumbia, local onde reside a família Keller. A mãe,
juntamente com o meio irmão de Helen, a esperam na estação, mas não
com a menina. O primeiro contato de ambas dá-se através da mala de
viagem da professora, quando se encontram na porta de entrada da
residência. Helen percebe a vibração da entrada de Anne, que coloca
pesadamente a mala no chão. A menina vai apalpando a mala, chegando
até Anne e também a apalpando para sentir sua presença, procurar
conhecê-la. Apesar disso, não aceita o beijo de Anne Sullivan e não
solta a mala, transportando-a escada acima, até os aposentos a serem
ocupados pela professora.
Demonstrando que faz o que quer, Helen abre a mala e vai
jogando o que está dentro, até achar uma boneca de pano, trazida
como material didático. A professora não perde tempo e,
imediatamente passa a ensinar o alfabeto de surdos, posicionando-lhe
os dedos. A menina é bastante agressiva, mas se interessa por
aprender e demonstra inteligência, que o irmão ironiza, menospreza,
dizendo que Helen “é uma macaquinha”, que tudo repete, sem entender.
A professora não se abala com tais palavras e continua
utilizando o sentido do tato para comunicar-se com a menina, bem
como o reforço positivo, dando à aluna um doce quando ela acerta;
quando dá a resposta esperada. Mais tarde, a professora questiona a
mãe por usar indevidamente o reforço positivo. A professora se
convence de que a menina imitará no momento, mas entenderá depois, e
se distrai com tal constatação. A esperta menina, de pronto mostra
sua perspicácia, pois percebe a distração da professora e atira-lhe
a boneca ao rosto com tal fúria que lhe arranca um dente. Além
disso, sai rapidamente dos aposentos e tranca a porta por fora,
levando embora e escondendo a chave. Tal fato deixa o Capitão muito
bravo, a ponto de dizer à mulher que, agora, são duas pessoas a dar
trabalho e exigir atenção e ajuda da família. Ele tira a professora
do quarto, que fica no andar superior do sobrado, com uma escada. Já
no jardim, Anne vê a menina, que pensa estar sozinha, conferir se a
chave continua escondida sob um tijolo.
Anne Sullivan e a mãe de Helen decidiram educar a menina.
Assim, a professora dá continuidade a seu trabalho, pesquisando
sobre disciplina nos livros que trouxe e escrevendo com auxílio de
uma caneta e um tinteiro cheio de tinta escura, que Helen derruba. A
situação é aproveitada para ensinar a menina, levando-a a perceber
que fez algo errado. Também procura ensiná-la a bordar, passando
linha numa agulha, em um pano no bastidor, mas a aluna se fura na
agulha e “explode”. A professora decide trabalhar a temperança e faz
expressão de brava, pega a mão da menina, passando-a por seu rosto,
para que perceba a expressão, fazendo com a cabeça sinal negativo.
Depois mostra-lhe a expressão de alegria, relacionando-a a algo
positivo e ao sinal de sim. Diz “boa menina” e sorri, para que ela
aprenda a sorrir, associando o riso à alegria e a algo certo, bem
feito. Assim, usa as expressões do rosto para reforçar
comportamentos desejáveis da aluna e afastar os indesejáveis: para
uma atitude correta um rosto feliz e para uma atitude incorreta um
rosto bravo. Mas Helen testa a professora: quebra um vaso e ri,
colocando a mão no rosto da professora, que faz expressão de brava e
sinal de não, mostrando-lhe que sua ação estava errada e não deve se
repetir. Ao mesmo tempo, ensina a menina a soletrar cada palavra com
as mãos, visando dotá-la da capacidade de expressar seus
sentimentos, desejos e emoções. Anne utilizou o estímulo e resposta;
da teoria skinneriana, para reforçar a aprendizagem da aluna. Por
exemplo, colocava um copo cheio de leite à frente da menina e a
ensinava a soletrar. Se a soletração estivesse certa, ela podia
tomar o leite, caso contrário, não.
A mãe de Helen também se interessa em aprender tal
alfabeto, porque deseja comunicar-se com a filha; deseja que a filha
entenda o que ela quer lhe transmitir e deseja entender o que filha
comunica. Anne diz a essa mãe que talvez a menina aprenda depois de
um milhão de palavras, mas a mãe responde que continua querendo
aprender. Helen se agita, fura a professora, se bate, e a mãe lhe dá
um doce. Anne Sullivan a interpela:
- Por que ela está sendo premiada, por furar-me?
Neste ponto fica muito nítida a importância de que os
adultos tenham clareza em suas atitudes para com a criança, que os
está imitando e, dessa forma, aprendendo. A criança, realmente, fica
muito confusa sobre o que é certo e o que é errado se o adulto não
for claro ao mostrar-lhe as conseqüências de seus próprios atos, uma
vez que a solidariedade, a justiça, a submissão às regras são
valores que se aprendem.
O filme nos mostra um trabalho de total dedicação e
paciência, além de contar com toda a inteligência e sensibilidade
das duas pessoas diretamente envolvidas: Helen Keller e sua
professora Anne Sullivan. Esta, ainda muito jovem e decidida a ter
sucesso em sua empreitada, ousa tomar decisões que não agradam aos
pais da menina, muito menos à própria menina, acostumada que estava
a ter todos os seus caprichos atendidos. A mãe, no entanto, é a
primeira pessoa a depositar confiança no trabalho da professora,
apoiando-a e defendendo seus métodos.
Emocionantes são as cenas em que o Capitão, à mesa de
refeição, conversa sobre a guerra e suas conseqüências, enquanto a
filha circula ao redor, colocando as mãos nos pratos das pessoas,
retirando deles os alimentos que deseja comer, até chegar no prato
da professora, que não lhe dá tal permissão; muito pelo contrário,
vai ensiná-la a comportar-se à mesa. Os pais dizem que Helen está
acostumada a fazer isso, que tenha piedade da menina. Mas a
professora não concorda e lhes diz: “Piedade dessa tirana? A casa
toda faz o que ela quer (...) dá menos trabalho sentir pena do que
ensinar”. Solicita que todos se retirem, pois vai começar no mesmo
instante a ensinar sua aluna a comportar-se. Ali passam a tarde a
digladiar-se; Anne é determinada e não desiste, deixando Helen
sapatear até cansar. Então coloca a comida com talher em sua boca.
Helen cospe a comida e bate no rosto da professora, que revida,
usando a teoria de Skinner, do condicionamento operante, até que a
menina percebe que a professora não vai parar e desiste de bater.
Quase na hora do jantar, Anne sai da sala de refeições e
diz à mãe que Helen conseguiu comer com talher e dobrar o
guardanapo. Tal fato encanta a mãe, reforçando nela a certeza de que
a filha vai aprender. Quando o marido e a tia dele dizem que
mandarão Anne Sullivan de volta no primeiro trem para Boston, pois
ela é uma criada e deve mudar de atitude, é a mãe que lhes diz,
maravilhada, que Helen já aprendeu a dobrar o guardanapo,
convencendo-os a continuar a empreitada. Essas pequenas conquistas é
que vão sustentando a motivação da mãe, que permanece fiel à
contratação da professora.
É claro que esse fato ocorreu em uma época diferente da
nossa, em local diferente de escola, pois foi um ensinamento
individual, no entanto provou que uma criança cega e surda desde os
dezoito meses pode aprender a partir dos sete anos, mesmo tendo
permanecido tanto tempo sem aprender quase nada. Fica comprovado que
a coragem, a perseverança, o bom senso, a ousadia e conhecimento do
professor podem conseguir verdadeiros milagres. Anne não desistiu, e
o filme mostra que houve momentos em que recorreu, também, à oração
e leu que, quando uma pessoa está soterrada, todos vão ajudar.
Comparou o fato à situação de Hellen, que estava fechada em si
mesma, concluindo que era seu dever ajudá-la a libertar-se, pois
ninguém mais a estava socorrendo no que diz respeito ao seu direito
de comunicar-se com os demais. Seu trabalho docente poderia
despertá-la para a consciência da sua imortalidade, apesar da chance
ser pequena. A partir dessa leitura e das reflexões que produziu, a
professora teve a idéia de trabalhar separadamente com sua pupila,
evitando a proteção e as interferências dos familiares.
Em uma próxima cena, bravo, o Capitão interpela a esposa
citando todos os pratos que foram quebrados para ensinar a menina a
comer sentada e com talher. Também fala que a menina foge da
professora, a qual, segundo ele, foi incompetente e impertinente. No
entanto, quando vai dizer para Anne Sullivan que não está satisfeito
com seus serviços, ela é mais rápida e fala outra coisa. Ele
responde que gosta de olhar nos olhos das pessoas com quem fala.
Então a professora tira os óculos escuros e o fita, dizendo que
qualquer luz machuca seus olhos, que já passaram por diversas
cirurgias. Ele lhe diz para recolocar os óculos e ela aproveita para
propor um programa diferenciado de atendimento educativo. O pai de
Helen quer colocar condições para que a professora permaneça, no
entanto é ela quem coloca as condições, contando com a ajuda da Sra.
Keller, que diz que a menina, aos seis meses pedia água e que isso
deve estar em algum lugar. Anne Sullivan coloca que, a seu ver, a
maior deficiência de Helen encontra-se no amor e piedade que os
familiares lhe dedicam; que Helen é como uma mascote. Por isso, diz
que é inútil tentar ensiná-la nessa casa; que só nesse dia percebeu
o que deve ser feito: a menina deve depender dela para tudo, longe
das pessoas que a amam, até aprender a escutá-la.
A mãe conta que já havia visitado um asilo, e que foi
horrível. Na emoção do momento, Anne Sullivan conta sua infância,
vivida num asilo do Estado, em companhia de um irmão mais novo e com
problemas nas pernas. Ela quase cega, convivendo com pessoas velhas
e com pessoas dementes, brincando entre ratos e cadáveres. Mas tudo
isso a fez forte! E acha que Helen Keller é forte o bastante para
aprender. E garante que sua pupila aprenderá, desde que possa manter
o controle total sobre ela; até sobre o ar que respira.
O pai da menina concorda em levá-la para a cabana de caça,
sem que ela saiba que está perto da família. No entanto dá apenas
duas semanas para que haja sucesso no empreendimento; nem um minuto
a mais. A corajosa professora concorda e, no dia seguinte, espera
pela aluna na cabana. Esta chega, após rodar muito de carruagem,
pensando estar longe de casa. Os pais se vão quando ela faz o gesto
de contato com a professora. Helen Keller percebe que está sozinha
com a professora e se rebela; luta com ela, atirando longe tudo que
encontra, até que, cansada, pega a boneca e chora sobre o brinquedo.
Andando ao redor dessa pequena casa de caça onde a
professora, sua aluna e um menino, filho de uma serviçal da família,
se encontram, o meio irmão de Helen ouve a voz de Anne Sullivan e
responde suas palavras, perguntando-lhe como fará para conquistar a
menina. Ela responde não ter um plano definido e ele a incentiva a
desistir, ouvindo como resposta que desistir é a idéia que ela tem
do pecado original e que, se pensasse assim, estaria morta.
A professora se convence: “Nada de pressa. Não aceito
isso”. E tem a idéia de fazer o menino que as acompanha, Percy,
comunicar-se com Helen, que não deixa a professora tocá-la. Helen
cheira o menino, toca nele e o reconhece, passando a brincar com
ele. Anne aproveita para ir pegando na mão de Helen, para soletrar,
através da mão do menino, despertando sua curiosidade. Helen soletra
bolo e Anne vai buscar-lhe um pedaço de bolo. Helen percebe que a
professora continua soletrando com Percy e vai até o menino
novamente, para comunicar-se com a professora, que percebeu dever
esperar a iniciativa da menina.
A partir daí a professora pode tocá-la novamente, mas
pensa: “nada de amores”; só o lado profissional deve imperar nesta
fase. “Agora só tenho que ensinar uma palavra: tudo.” Anne usou a
mudança de ambiente e a dependência da aluna para estabelecer um
vínculo de confiança entre elas e, com isso, despertar o interesse
de Helen por coisas que ainda desconhecia. A próxima etapa é
ensiná-la a se vestir sozinha e enquanto não faz isso, não come.
Também não quer pentear-se. Nesse momento, o pai da menina se
aproxima da janela e conversa com a professora. Vê o café da manhã
da menina e questiona. Anne responde que Helen sabe que vai comer
quando se vestir. E diz que tudo é justo no amor e na guerra. O pai
pergunta: Miss Sullivan, você gosta da criança? Ela lhe devolve a
pergunta: E você? Ele fica mudo e vai embora.
Pouco a pouco a professora conquistou a confiança de Helen
e, assim, pode colocar em prática suas estratégias de ação, pois a
aluna se encontrava disposta a progredir; estava motivada e se
dedicava ativamente a aprender coisas novas, questionando a
professora sobre as coisas que tocava e que analisava através dos
sentidos, sobretudo o tato. A professora aproveita o tempo para
ensinar o máximo de palavras, vivenciando com ela cada uma, como
água, árvore, folha, pássaro, ovo, vida etc. Mas se preocupava muito
por achar que obedecer não é o bastante. Helen precisava aprender;
precisava entender a relação entre as palavras e aquilo que elas
significam. A professora procurou explorar todo o potencial da
aluna, estimulando-a a superar a sua própria deficiência. Para
tanto, se recusava a sentir pena da aluna; o que ela desejava era
cumprir sua missão de ensiná-la. E estava certa de que não era
compadecendo-se do estado da menina que conseguiria ajudá-la.
Esforça-se, isso sim, em criar um laço, um vínculo com a aluna e com
o conhecimento.
A película revela momentos em que, desolada, Anne diz
precisar de um professor tanto quanto Helen. Isso nos mostra que o
professor não é um ser todo poderoso; que o docente também passa por
momentos difíceis, tem dúvidas, precisa trocar idéias; sabe que não
é o dono da verdade, mas nem por isso vai desistir de seu
compromisso com a educação.
Os pais da menina vão até o local para avisar que o tempo
está terminando. O Capitão diz achar que Anne espera demais de Helen
e de si mesma. A mãe aproveita para perguntar a Anne se a menina
também não precisa de afeto. A resposta é que, até aquele momento,
Helen não demonstrara isso. No entanto, Anne passa a pensar sobre
tal possibilidade. Os pais declaram estar satisfeitos com o
treinamento, com os progressos alcançados, mas a professora não
está. Ela quer que sua aluna busque a luz trazida pelas palavras;
que entenda a relação entre as palavras e o que elas significam,
pois pensamos, sabemos e compartilhamos com palavras. “Como posso
lhe dizer que um objeto significa uma palavra?”, reflete a
professora.
Quando Anne recebeu seu primeiro salário já estava de volta
à casa grande e a menina já obedecia, mas sem compreensão. No
entanto, a professora continuava insatisfeita com seu trabalho e
dizia: “O mundo não é um lugar fácil. Não quero que ela só obedeça.”
Um almoço festivo foi preparado para recepcionar a volta de
Helen, mas a menina quis retornar aos hábitos antigos. Desta vez, a
professora havia pedido ajuda ao pai, dizendo-lhe que, se cedessem
aos seus caprichos, a estragariam e prejudicariam, pensando ajudar.
Quando Helen começou a comer com as mãos pedaços de alimentos dos
pratos dos demais, a professora colocou: “Ela está testando a vocês
e a mim. Deixem-me continuar o que estou ensinando e ela continuará
aprendendo”. O Capitão lhe deu apôio primeiramente, mas depois
tentou fazer da menina a convidada de honra. Helen se aproveitou
para voltar ao comportamento anterior. A professora declarou: “Se
ela enxergasse vocês não fariam isso!” Continuou recusando-se a
aceitar que outras pessoas fizessem as coisas por Helen, que tinha
capacidade de fazer sozinha o que necessitasse. Pegou na mão de da
aluna, pegou o jarro vazio e saiu para o quintal, para que a menina
enchesse o jarro de água e o levasse de volta para a mesa, limpando
o que sujou.
Na emoção do momento, Anne movimentou a bomba de água e
Helen, molhando as mãos diz: água, mostrando que entendeu o
que pronunciou. E colocou a mão no rosto da professora para que esta
confirmasse. Anne, muito emocionada, confirma. A menina passa a
nomear e identificar outras coisas, como terra, barro, grama,
planta. Toda a família se emociona.
O filme termina e fica a mensagem de que o dia mais
importante da vida de Helen Keller foi aquele em que ela conheceu
sua professora, Anne Sullivan, profissional inteligente,
persistente, sensível, corajosa e determinada, que apesar da pouca
idade tinha uma excelente formação; soube planejar suas ações e
enfrentar os preconceitos e as pessoas que duvidaram da sua
capacidade de ensinar ou da aluna aprender. Não se deixou abater e
conseguiu um milagre, fazendo com que a menina descobrisse um mundo
novo, ou seja, conquistasse a sua independência, através do
conhecimento das palavras, da interação, da vida. E no tempo recorde
de apenas um mês.
Este filme transmite a forte lição de que não há limite que
não possa ser superado mediante a vontade e a determinação das
pessoas envolvidas. Mostra-nos, também, que o princípio da igualdade
deve prevalecer em todas as circunstâncias que envolvem ensino e
aprendizagem, pois todas as pessoas têm o direito de aprender, de
receber um tratamento justo, livre de piedade e de preconceito, pois
tais sentimentos acabam limitando o resultado do processo, podendo
levar à profecia auto-realizadora, quando o educador decide (mesmo
que inconscientemente) que o aluno nada aprenderá, e age de forma a
confirmar seu parecer.
Helen Keller holds
her Oscar award for the documentary, "Helen Keller In Her
Story", circa 1954.
Não
podíamos concluir sem breves palavras acerca da vida posterior das
protagonistas. Helen aprendeu rapidamente o alfabeto braile,
interessando-se sobremaneira pela leitura e escrita. Para ela, o
sentido do tato atuou como uma espécie de visão, a ponto de
declarar: “Não posso dizer se vemos melhor com as mãos ou com os
olhos: sei apenas que o mundo que vejo com as minhas mãos é vivo,
colorido, gratificante.” A professora continuou a viver com a
família Keller e a desenvolver seu trabalho ímpar, ensinando à
aluna, não apenas os alfabetos braile e manual, mas, também, a
perceber as nuances dos sentimentos e emoções dos interlocutores.
Helen chegou a falar, imitando as vibrações da garganta de sua
professora, conseguindo captar tais vibrações com as pontas dos
dedos, pelo tato.
Anne Sullivan orientou sua pupila a matricular-se no
Institute Horace Mann para surdos, em Boston e, posteriormente, na
escola Wright-Humason Oral, em Nova Iorque. Hellen Keller cursou
Filosofia na Universidade Radcliffe, formando-se com louvor em 1904.
Foi a primeira pessoa cega e surda a completar um curso
universitário. Dominou os idiomas francês, latim e alemão e foi
escritora, educadora e advogada de cegos. “A História de Minha
Vida”, autobiográfica, foi sua obra de estréia na literatura, em
1902. São de sua autoria, também, inúmeras obras de sucesso,
transcritas para diversas línguas, bem como artigos e reportagens
para jornais e revistas.
Professora e discípula percorreram, juntas, diversos países
do mundo, na promoção de campanhas visando conscientizar as pessoas
das possibilidades de aprendizagem dos deficientes visuais e
auditivos. Persistiram juntas, até a morte da professora, em 1936,
na corajosa luta em prol da integração do deficiente à sociedade,
possibilitando a alteração da visão social acerca das pessoas
deficientes.
Helen
Keller perseverou em sua participação ativa nas áreas da deficiência
visual e auditiva. A partir de 1924 foi membro da American
Foundation for the Blind, atuando pelo bem-estar dos cegos e
surdo-cegos. Visitou o Brasil em 1953, a convite do governo
brasileiro e da Fundação para o Livro do Cego no Brasil, proferindo
conferências e realizando visitas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Fundamentalmente, deu seu exemplo de vida e de luta, até o fim de
seus dias, em 1968.
Portrait of Miss Keller
photographed from the back with her face turned sideways, circa
1904.
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Joana
Maria R. Di Santo- Mestre em Educação, Psicopedagoga, Pedagoga
com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de
Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de
São Paulo, Professora Universitária ministrando disciplinas do Curso
de Pedagogia.e-mail:
cred@centrorefeducacional.com.br |
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