Série: Contribuições do Cinema para a Ação Docente

Parte 3

Prof. Ms. Joana Maria R. Di Santo

Educação Inclusiva – O Milagre de Anne Sullivan

 

Tudo se ilumina quando o aluno de Educação Inclusiva assiste a documentários e filmes que estabelecem uma ponte entre o que eles já ouviram falar e o que podem ver sobre necessidades especiais; sobre o trabalho de profissionais comprometidos/envolvidos com o desempenho de todos os seus alunos, suas competências e habilidades, bem como os resultados das ações amplamente planejadas e desenvolvidas com entusiasmo e responsabilidade. Podem, também, comparar alguns procedimentos com outros que, eventualmente, não obtiveram sucesso, analisando as causas e refletindo sobre as conseqüências.

Filmes como A História de Peter, produção americana de 1992, mostram diretamente as ações do aluno com Síndrome de Down em uma escola regular, interagindo numa sala de aula e no ambiente escolar. Peter aprende muito, não apenas no relacionamento com os colegas, mas no que diz respeito aos conteúdos desenvolvidos em sala de aula.

Para evitar equívocos, há que se realizar a análise em conjunto de películas que tratem de inclusão, sempre com a indispensável mediação do professor. Por exemplo, assistir ao filme O Milagre de Anne Sullivan, analisado detalhadamente mais adiante, é ter acesso ao caso mais famoso de inclusão social de uma pessoa cega e surda. Esse filme mostra o magnífico trabalho da educadora à época, bem como sua função individual e, de certa forma, datada, contratada que foi pela família de Helen Keller. Riquíssimo quanto ao conteúdo, a metodologia não pode ser seguida em sala de aula, no entanto, o filme como um todo embasa consistente discussão sobre grandes temas existenciais e as possibilidades de aprendizagem de qualquer pessoa. O valor do filme é inestimável, sobretudo se considerarmos que Helen Keller ainda vivia na época da filmagem e distribuição da película, o que lhe confere um ar de biografia.

Há ainda o aspecto maravilhoso de conferir atualidade ao cotidiano de outrora e estabelecer uma ponte entre gerações distantes, com usos, costumes e possibilidades muito diferentes dos atuais.

Assistir a esses filmes/documentários pode, até, provocar um desconforto inicial, mas, apesar do incômodo, desperta o desejo de trabalhar de maneira diferenciada, pois eles mostram que há condições de obter sucesso; que vale a pena cultivar a paciência e o olhar diferenciado, bem como o trabalho comprometido com a aprendizagem, pois há respostas positivas e estas fazem toda a diferença na vida das pessoas com necessidades especiais. A inexperiência do estudante encontra fontes de inspiração em tais películas, que os auxiliam a analisar assuntos tão complexos, acabando por se constituir em suas primeiras experiências com Educação Inclusiva.

A importância da utilização dos filmes como instrumentos didático-pedagógicos em sala de aula pode ser avaliada a partir dos efeitos, encantos, desejos que as imagens e sons trabalhados despertam nos alunos, uma vez que a imagem, seja ela qual for, possibilita a desconstrução, a construção, a contextualização e a relativização quando associada ao cotidiano das pessoas. Mais ainda quando se trata do cotidiano de sala de aula de professores iniciantes.

O Milagre de Anne Sullivan

Importantíssimo filme, que fez sucesso nos cinemas no início da década de 1960, baseado na história verídica de Helen Keller, ainda viva à época. O tema continua bastante atual: a inclusão social da pessoa com necessidades especiais, bem como a resistência da família e o valor inestimável do educador consciente, lúcido, competente para o sucesso desse processo educativo.

Anne Sullivan e Helen Keller

Helen Adams Keller era uma linda menina loura, americana (de Tuscumbia, Alabama, EUA), que nasceu normal, bastante inteligente, em 27 de junho de 1880, mas teve uma febre muito alta aos dezoito meses de idade e, apesar de socorrida pelo médico da família, apresentou seqüelas: cegueira e surdez. De família rica e tradicional do Sul dos Estados Unidos, filha do Capitão Arthur Keller, que, em 1885, foi Prefeito de Alabama do Norte, morava numa bela e enorme casa, com seus pais e um meio irmão mais velho por parte de pai.  O Capitão Keller estava casado a com a mãe de Anne, uma mulher bem mais jovem, bonita e inteligente, com quem teve outros filhos além da primogênita Helen.

Esperta, apesar de cega e surda, o que a tornava, também, muda, Helen infernizava a vida familiar, reivindicando para si toda a atenção da mãe, que muito a defendia, mas não colocava limites para suas ações, pois tinha muita pena desta filha, outrora tão vivaz e comunicativa, que se revoltava com sua condição de incapacidade de expressão, o que a excluía do mundo, quer como ambiente de beleza e estímulos sonoros e visuais, quer como ambiente de interação sociocultural.

O pai desejava internar Helen em um asilo do Estado para deficientes mentais, no entanto, devido à insistência da esposa, que diz estar disposta a trazer a filha de volta à interação com os familiares, o Capitão Keller concorda em escrever pedindo auxílio para seus amigos, que indicam a Escola Perkins para Cegos, em Boston, que à época  obtinha bons resultados em educação especial. Em tal instituição trabalha o protetor de Anne Sullivan, jovem professora de vinte e um anos que lá havia estudado, em decorrência da cegueira que apresentara quando criança, da qual conseguira recuperar-se mediante nove operações. Anne Sullivan aceita atender Helen Keller. Antes de partir para seu trabalho, Anne Sullivan recebe várias orientações, no sentido de que seja humilde, pois vai precisar do afeto das pessoas que a estão contratando.

A jovem professora empreende uma longa viagem de trem até chegar a Tuscumbia, local onde reside a família Keller. A mãe, juntamente com o meio irmão de Helen, a esperam na estação, mas não com a menina. O primeiro contato de ambas dá-se através da mala de viagem da professora, quando se encontram na porta de entrada da residência. Helen percebe a vibração da entrada de Anne, que coloca pesadamente a mala no chão. A menina vai apalpando a mala, chegando até Anne e também a apalpando para sentir sua presença, procurar conhecê-la. Apesar disso, não aceita o beijo de Anne Sullivan e não solta a mala, transportando-a escada acima, até os aposentos a serem ocupados pela professora.

Demonstrando que faz o que quer, Helen abre a mala e vai jogando o que está dentro, até achar uma boneca de pano, trazida como material didático. A professora não perde tempo e, imediatamente passa a ensinar o alfabeto de surdos, posicionando-lhe os dedos. A menina é bastante agressiva, mas se interessa por aprender e demonstra inteligência, que o irmão ironiza, menospreza, dizendo que Helen “é uma macaquinha”, que tudo repete, sem entender.

A professora não se abala com tais palavras e continua utilizando o sentido do tato para comunicar-se com a menina, bem como o reforço positivo, dando à aluna um doce quando ela acerta; quando dá a resposta esperada. Mais tarde, a professora questiona a mãe por usar indevidamente o reforço positivo. A professora se convence de que a menina imitará no momento, mas entenderá depois, e se distrai com tal constatação. A esperta menina, de pronto mostra sua perspicácia, pois percebe a distração da professora e atira-lhe a boneca ao rosto com tal fúria que lhe arranca um dente. Além disso, sai rapidamente dos aposentos e tranca a porta por fora, levando embora e escondendo a chave. Tal fato deixa o Capitão muito bravo, a ponto de dizer à mulher que, agora, são duas pessoas a dar trabalho e exigir atenção e ajuda da família. Ele tira a professora do quarto, que fica no andar superior do sobrado, com uma escada. Já no jardim, Anne vê a menina, que pensa estar sozinha, conferir se a chave continua escondida sob um tijolo.

Anne Sullivan e a mãe de Helen decidiram educar a menina. Assim, a professora dá continuidade a seu trabalho, pesquisando sobre disciplina nos livros que trouxe e escrevendo com auxílio de uma caneta e um tinteiro cheio de tinta escura, que Helen derruba. A situação é aproveitada para ensinar a menina, levando-a a perceber que fez algo errado. Também procura ensiná-la a bordar, passando linha numa agulha, em um pano no bastidor, mas a aluna se fura na agulha e “explode”. A professora decide trabalhar a temperança e faz expressão de brava, pega a mão da menina, passando-a por seu rosto, para que perceba a expressão, fazendo com a cabeça sinal negativo. Depois mostra-lhe a expressão de alegria, relacionando-a a algo positivo e ao sinal de sim. Diz “boa menina” e sorri, para que ela aprenda a sorrir, associando o riso à alegria e a algo certo, bem feito. Assim, usa as expressões do rosto para reforçar comportamentos desejáveis da aluna e afastar os indesejáveis: para uma atitude correta um rosto feliz e para uma atitude incorreta um rosto bravo. Mas Helen testa a professora: quebra um vaso e ri, colocando a mão no rosto da professora, que faz expressão de brava e sinal de não, mostrando-lhe que sua ação estava errada e não deve se repetir. Ao mesmo tempo, ensina a menina a soletrar cada palavra com as mãos, visando dotá-la da capacidade de  expressar seus sentimentos, desejos e emoções. Anne utilizou o estímulo e resposta; da teoria skinneriana, para reforçar a aprendizagem da aluna. Por exemplo, colocava um copo cheio de leite à frente da menina e a ensinava a soletrar. Se a soletração estivesse certa, ela podia tomar o leite, caso contrário, não.

A mãe de Helen também se interessa em aprender tal alfabeto, porque deseja comunicar-se com a filha; deseja que a filha entenda o que ela quer lhe transmitir e deseja entender o que filha comunica. Anne diz a essa mãe que talvez a menina aprenda depois de um milhão de palavras, mas a mãe responde que continua querendo aprender. Helen se agita, fura a professora, se bate, e a mãe lhe dá um doce. Anne Sullivan a interpela:

- Por que ela está sendo premiada, por furar-me?

Neste ponto fica muito nítida a importância de que os adultos tenham clareza em suas atitudes para com a criança, que os está imitando e, dessa forma, aprendendo. A criança, realmente, fica muito confusa sobre o que é certo e o que é errado se o adulto não for claro ao mostrar-lhe as conseqüências de seus próprios atos, uma vez que a solidariedade, a justiça, a submissão às regras são valores que se aprendem.

O filme nos mostra um trabalho de total dedicação e paciência, além de contar com toda a inteligência e sensibilidade das duas pessoas diretamente envolvidas: Helen Keller e sua professora Anne Sullivan. Esta, ainda muito jovem e decidida a ter sucesso em sua empreitada, ousa tomar decisões que não agradam aos pais da menina, muito menos à própria menina, acostumada que estava a ter todos os seus caprichos atendidos. A mãe, no entanto, é a primeira pessoa a depositar confiança no trabalho da professora, apoiando-a e defendendo seus métodos.

Emocionantes são as cenas em que o Capitão, à mesa de refeição, conversa sobre a guerra e suas conseqüências, enquanto a filha circula ao redor, colocando as mãos nos pratos das pessoas, retirando deles os alimentos que deseja comer, até chegar no prato da professora, que não lhe dá tal permissão; muito pelo contrário, vai ensiná-la a comportar-se à mesa. Os pais dizem que Helen está acostumada a fazer isso, que tenha piedade da menina. Mas a professora não concorda e lhes diz: “Piedade dessa tirana? A casa toda faz o que ela quer (...) dá menos trabalho sentir pena do que ensinar”. Solicita que todos se retirem, pois vai começar no mesmo instante a ensinar sua aluna a comportar-se. Ali passam a tarde a digladiar-se; Anne é determinada e não desiste, deixando Helen sapatear até cansar. Então coloca a comida com talher em sua boca. Helen cospe a comida e bate no rosto da professora, que revida, usando a teoria de Skinner, do condicionamento operante, até que a menina percebe que a professora não vai parar e desiste de bater.

Quase na hora do jantar, Anne sai da sala de refeições e diz à mãe que Helen conseguiu comer com talher e dobrar o guardanapo. Tal fato encanta a mãe, reforçando nela a certeza de que a filha vai aprender. Quando o marido e a tia dele dizem que mandarão Anne Sullivan de volta no primeiro trem para Boston, pois ela é uma criada e deve mudar de atitude, é a mãe que lhes diz, maravilhada, que Helen já aprendeu a dobrar o guardanapo, convencendo-os a continuar a empreitada. Essas pequenas conquistas é que vão sustentando a motivação da mãe, que permanece fiel à contratação da professora. 

É claro que esse fato ocorreu em uma época diferente da nossa, em local diferente de escola, pois foi um ensinamento individual, no entanto provou que uma criança cega e surda desde os dezoito meses pode aprender a partir dos sete anos, mesmo tendo permanecido tanto tempo sem aprender quase nada. Fica comprovado que a coragem, a perseverança, o bom senso, a ousadia e conhecimento do professor podem conseguir verdadeiros milagres. Anne não desistiu, e o filme mostra que houve momentos em que recorreu, também, à oração e leu que, quando uma pessoa está soterrada, todos vão ajudar. Comparou o fato à situação de Hellen, que estava fechada em si mesma, concluindo que era seu dever ajudá-la a libertar-se, pois ninguém mais a estava socorrendo no que diz respeito ao seu direito de comunicar-se com os demais. Seu trabalho docente poderia despertá-la para a consciência da sua imortalidade, apesar da chance ser pequena. A partir dessa leitura e das reflexões que produziu, a professora teve a idéia de trabalhar separadamente com sua pupila, evitando a proteção e as interferências dos familiares.

Em uma próxima cena, bravo, o Capitão interpela a esposa citando todos os pratos que foram quebrados para ensinar a menina a comer sentada e com talher. Também fala que a menina foge da professora, a qual, segundo ele, foi incompetente e impertinente. No entanto, quando vai dizer para Anne Sullivan que não está satisfeito com seus serviços, ela é mais rápida e fala outra coisa. Ele responde que gosta de olhar nos olhos das pessoas com quem fala. Então a professora tira os óculos escuros e o fita, dizendo que qualquer luz machuca seus olhos, que já passaram por diversas cirurgias. Ele lhe diz para recolocar os óculos e ela aproveita para propor um programa diferenciado de atendimento educativo. O pai de Helen quer colocar condições para que a professora permaneça, no entanto é ela quem coloca as condições, contando com a ajuda da Sra. Keller, que diz que a menina, aos seis meses pedia água e que isso deve estar em algum lugar.  Anne Sullivan coloca que, a seu ver, a maior deficiência de Helen encontra-se no amor e piedade que os familiares lhe dedicam; que Helen é como uma mascote. Por isso, diz que é inútil tentar ensiná-la nessa casa; que só nesse dia percebeu o que deve ser feito: a menina deve depender dela para tudo, longe das pessoas que a amam, até aprender a escutá-la.

A mãe conta que já havia visitado um asilo, e que foi horrível. Na emoção do momento, Anne Sullivan conta sua infância, vivida num asilo do Estado, em companhia de um irmão mais novo e com problemas nas pernas. Ela quase cega, convivendo com pessoas velhas e com pessoas dementes, brincando entre ratos e cadáveres. Mas tudo isso a fez forte! E acha que Helen Keller é forte o bastante para aprender. E garante que sua pupila aprenderá, desde que possa manter o controle total sobre ela; até sobre o ar que respira.

O pai da menina concorda em levá-la para a cabana de caça, sem que ela saiba que está perto da família. No entanto dá apenas duas semanas para que haja sucesso no empreendimento; nem um minuto a mais. A corajosa professora concorda e, no dia seguinte, espera pela aluna na cabana. Esta chega, após rodar muito de carruagem, pensando estar longe de casa. Os pais se vão quando ela faz o gesto de contato com a professora. Helen Keller percebe que está sozinha com a professora e se rebela; luta com ela, atirando longe tudo que encontra, até que, cansada, pega a boneca e chora sobre o brinquedo.

Andando ao redor dessa pequena casa de caça onde a professora, sua aluna e um menino, filho de uma serviçal da família, se encontram, o meio irmão de Helen ouve a voz de Anne Sullivan e responde suas palavras, perguntando-lhe como fará para conquistar a menina. Ela responde não ter um plano definido e ele a incentiva a desistir, ouvindo como resposta que desistir é a idéia que ela tem do pecado original e que, se pensasse assim, estaria morta.

A professora se convence: “Nada de pressa. Não aceito isso”. E tem a idéia de fazer o menino que as acompanha, Percy, comunicar-se com Helen, que não deixa a professora tocá-la. Helen cheira o menino, toca nele e o reconhece, passando a brincar com ele.  Anne aproveita para ir pegando na mão de Helen, para soletrar, através da mão do menino, despertando sua curiosidade. Helen soletra bolo e Anne vai buscar-lhe um pedaço de bolo. Helen percebe que a professora continua soletrando com Percy e vai até o menino novamente, para comunicar-se com a professora, que percebeu dever esperar a iniciativa da menina.

A partir daí a professora pode tocá-la novamente, mas pensa: “nada de amores”; só o lado profissional deve imperar nesta fase. “Agora só tenho que ensinar uma palavra: tudo.” Anne usou a mudança de ambiente e a dependência da aluna para estabelecer um vínculo de confiança entre elas e, com isso, despertar o interesse de Helen por coisas que ainda desconhecia. A próxima etapa é ensiná-la a se vestir sozinha e enquanto não faz isso, não come. Também não quer pentear-se. Nesse momento, o pai da menina se aproxima da janela e conversa com a professora. Vê o café da manhã da menina e questiona. Anne responde que Helen sabe que vai comer quando se vestir. E diz que tudo é justo no amor e na guerra. O pai pergunta: Miss Sullivan, você gosta da criança? Ela lhe devolve a pergunta: E você? Ele fica mudo e vai embora.

Pouco a pouco a professora conquistou a confiança de Helen e, assim, pode colocar em prática suas estratégias de ação, pois a aluna se encontrava disposta a progredir; estava motivada e se dedicava ativamente a aprender coisas novas, questionando a professora sobre as coisas que tocava e que analisava através dos sentidos, sobretudo o tato. A professora aproveita o tempo para ensinar o máximo de palavras, vivenciando com ela cada uma, como água, árvore, folha, pássaro, ovo, vida etc. Mas se preocupava muito por achar que obedecer não é o bastante. Helen precisava aprender; precisava entender a relação entre as palavras e aquilo que elas significam. A professora procurou explorar todo o potencial da aluna, estimulando-a a superar a sua própria deficiência. Para tanto, se recusava a sentir pena da aluna; o que ela desejava era cumprir sua missão de ensiná-la. E estava certa de que não era compadecendo-se do estado da menina que conseguiria ajudá-la. Esforça-se, isso sim, em criar um laço, um vínculo com a aluna e com o conhecimento.

A película revela momentos em que, desolada, Anne diz precisar de um professor tanto quanto Helen. Isso nos mostra que o professor não é um ser todo poderoso; que o docente também passa por momentos difíceis, tem dúvidas, precisa trocar idéias; sabe que não é o dono da verdade, mas nem por isso vai desistir de seu compromisso com a educação.

Os pais da menina vão até o local para avisar que o tempo está terminando. O Capitão diz achar que Anne espera demais de Helen e de si mesma. A mãe aproveita para perguntar a Anne se a menina também não precisa de afeto. A resposta é que, até aquele momento, Helen não demonstrara isso. No entanto, Anne passa a pensar sobre tal possibilidade. Os pais declaram estar satisfeitos com o treinamento, com os progressos alcançados, mas a professora não está. Ela quer que sua aluna busque a luz trazida pelas palavras; que entenda a relação entre as palavras e o que elas significam, pois pensamos, sabemos e compartilhamos com palavras. “Como posso lhe dizer que um objeto significa uma palavra?”, reflete a professora. 

Quando Anne recebeu seu primeiro salário já estava de volta à casa grande e a menina já obedecia, mas sem compreensão. No entanto, a professora continuava insatisfeita com seu trabalho e dizia: “O mundo não é um lugar fácil. Não quero que ela só obedeça.”

Um almoço festivo foi preparado para recepcionar a volta de Helen, mas a menina quis retornar aos hábitos antigos. Desta vez, a professora havia pedido ajuda ao pai, dizendo-lhe que, se cedessem aos seus caprichos, a estragariam e prejudicariam, pensando ajudar. Quando Helen começou a comer com as mãos pedaços de alimentos dos pratos dos demais, a professora colocou: “Ela está testando a vocês e a mim. Deixem-me continuar o que estou ensinando e ela continuará aprendendo”. O Capitão lhe deu apôio primeiramente, mas depois tentou fazer da menina a convidada de honra. Helen se aproveitou para voltar ao comportamento anterior. A professora declarou: “Se ela enxergasse vocês não fariam isso!” Continuou recusando-se a aceitar que outras pessoas fizessem as coisas por Helen, que tinha capacidade de fazer sozinha o que necessitasse. Pegou na mão de da aluna, pegou o jarro vazio e saiu para o quintal, para que a menina enchesse o jarro de água e o levasse de volta para a mesa, limpando o que sujou.

Na emoção do momento, Anne movimentou a bomba de água e Helen, molhando as mãos diz: água, mostrando que entendeu o que pronunciou. E colocou a mão no rosto da professora para que esta confirmasse. Anne, muito emocionada, confirma. A menina passa a nomear e identificar outras coisas, como terra, barro, grama, planta. Toda a família se emociona.

O filme termina e fica a mensagem de que o dia mais importante da vida de Helen Keller foi aquele em que ela conheceu sua professora, Anne Sullivan, profissional inteligente, persistente, sensível, corajosa e determinada, que apesar da pouca idade tinha uma excelente formação; soube planejar suas ações e enfrentar os preconceitos e as pessoas que duvidaram da sua capacidade de ensinar ou da aluna aprender. Não se deixou abater e conseguiu um milagre, fazendo com que a menina descobrisse um mundo novo, ou seja, conquistasse a sua independência, através do conhecimento das palavras, da interação, da vida. E no tempo recorde de apenas um mês.

Este filme transmite a forte lição de que não há limite que não possa ser superado mediante a vontade e a determinação das pessoas envolvidas. Mostra-nos, também, que o princípio da igualdade deve prevalecer em todas as circunstâncias que envolvem ensino e aprendizagem, pois todas as pessoas têm o direito de aprender, de receber um tratamento justo, livre de piedade e de preconceito, pois tais sentimentos acabam limitando o resultado do processo, podendo levar à profecia auto-realizadora, quando o educador decide (mesmo que inconscientemente) que o aluno nada aprenderá, e age de forma a confirmar seu parecer.

Helen Keller holds her Oscar award for the documentary, "Helen Keller In Her Story", circa 1954.

Não podíamos concluir sem breves palavras acerca da vida posterior das protagonistas. Helen aprendeu rapidamente o alfabeto braile, interessando-se sobremaneira pela leitura e escrita. Para ela, o sentido do tato atuou como uma espécie de visão, a ponto de declarar: “Não posso dizer se vemos melhor com as mãos ou com os olhos: sei apenas que o mundo que vejo com as minhas mãos é vivo, colorido, gratificante.” A professora continuou a viver com a família Keller e a desenvolver seu trabalho ímpar, ensinando à aluna, não apenas os alfabetos braile e manual, mas, também, a perceber as nuances dos sentimentos e emoções dos interlocutores. Helen chegou a falar, imitando as vibrações da garganta de sua professora, conseguindo captar tais vibrações com as pontas dos dedos, pelo tato.

Anne Sullivan orientou sua pupila a matricular-se no Institute Horace Mann para surdos, em Boston e, posteriormente, na escola Wright-Humason Oral, em Nova Iorque. Hellen Keller cursou Filosofia na Universidade Radcliffe, formando-se com louvor em 1904. Foi a primeira pessoa cega e surda a completar um curso universitário. Dominou os idiomas francês, latim e alemão e foi escritora, educadora e advogada de cegos. “A História de Minha Vida”, autobiográfica, foi sua obra de estréia na literatura, em 1902. São de sua autoria, também, inúmeras obras de sucesso, transcritas para diversas línguas, bem como artigos e reportagens para jornais e revistas.

Professora e discípula percorreram, juntas, diversos países do mundo, na promoção de campanhas visando conscientizar as pessoas das possibilidades de aprendizagem dos deficientes visuais e auditivos. Persistiram juntas, até a morte da professora, em 1936, na corajosa luta em prol da integração do deficiente à sociedade, possibilitando a alteração da visão social acerca das pessoas deficientes.

Helen Keller perseverou em sua participação ativa nas áreas da deficiência visual e auditiva. A partir de 1924 foi membro da American Foundation for the Blind, atuando pelo bem-estar dos cegos e surdo-cegos. Visitou o Brasil em 1953, a convite do governo brasileiro e da Fundação para o Livro do Cego no Brasil, proferindo conferências e realizando visitas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Fundamentalmente, deu seu exemplo de vida e de luta, até o fim de seus dias, em 1968.

 

Portrait of Miss Keller photographed from the back with her face turned sideways, circa 1904.

Joana Maria R. Di Santo- Mestre em Educação, Psicopedagoga, Pedagoga
com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de São Paulo, Professora Universitária ministrando disciplinas do Curso de Pedagogia.e-mail: cred@centrorefeducacional.com.br

 

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atualizado/setembro/2007