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Articulação entre os vídeos: Conversando com quem gosta de ensinar
(Rubem Alves) e Fernão Capelo Gaivota
Conversando com quem gosta de ensinar, Rubem Alves nos diz
que muito do que se ensina tem o objetivo de tornar desnecessário o
pensamento, porque a receita do saber torna secundário o raciocínio.
É o que acontece com as gaivotas do bando de Fernão; agem sem
refletir, seguindo as receitas dos anciões, dando continuidade à
tradição, incondicionalmente, incontestavelmente. É como se
possuíssem asas de galinha e não conseguissem voar, pois não saem
dos rígidos esquemas pré - estabelecidos; não ousam, ficam sempre
iguais, permanecem indistintas, comuns, previsíveis.
Fernão
Capelo Gaivota, no entanto, é diferente; ele se destaca do bando
porque transforma suas asas de gaivota em asas de condor, através da
percepção das suas potencialidades e possibilidades; da ousadia para
criar, interpretar, articular.
Queria descobrir o real sentido de sua vida; queria
conhecer outros lugares. Sozinho, busca seu caminho e desfruta da
liberdade de ser, decidir, nadar, voar. Reflete como bate suas asas
e como poderia ser se conseguisse voar bem mais alto do que todas as
outras gaivotas. E consegue. Adquire conhecimento. Encontra muitas
coisas que mudarão sua vida. Ele sabe que a vida pacata do bando não
é a única possível e não aceita a mediocridade. Como não há qualquer
gaivota que lhe sirva de modelo, usa seus próprios recursos para
superar-se. Ao fracassar, reflete sobre a coragem que tem de tentar
sempre ser ele mesmo. Procura forças e estímulos dentro de si mesmo
para reagir. E reage voando cada vez mais alto, vencendo obstáculos:
tempestades, ondas imensas, escuridão. Aprende.
Esse conhecimento permitiu-lhe ir descartando coisas com
que não concordava mais. Foi desarraigando preconceitos. Fernão
aprendeu a aprender, forma privilegiada de conhecimento.
Faz reflexão sobre si mesmo: Quem sou eu? Qual é o meu
destino? Reflete sobre suas tentativas, ousadia e coragem. E sonha
com novas possibilidades.
Para Rubem Alves a educação não começa na ação, mas no
sonho. E Fernão começa pelo sonho de superar as próprias limitações.
Nesse momento, estaria fazendo uso da fruição, conforme classificou
Santo Agostinho, uma das inteligências mais brilhantes que o mundo
já produziu. É como se Fernão tivesse que comer os frutos de uma
árvore, os quais precisam ser comidos. É o carpe diem, que
para Fernão é voar cada vez mais alto, no escuro, nas tempestades,
nos mais longínquos locais. Superar-se a si mesmo é o seu gozo.
Como a aranha descrita por Rubem Alves, Fernão não caminha
sobre bases sólidas, mas tira um fio de seu próprio corpo e se lança
no abismo, arriscando tudo. Quer encontrar um fundamento para sua
vida; quer aperfeiçoar cada vez mais seu vôo e, à medida que
encontra mais verdades, encontra mais possibilidades e enfrenta
maiores desafios.
Agindo em busca da verdade, se afasta da superstição e das
amarras da ignorância. Afasta-se também da normalidade porque se
distancia das demais gaivotas do bando, que, obedientes e passivas,
seguiam rigorosamente as ordens dos anciões, que detinham o poder.
Utiliza o conhecimento adquirido para se posicionar no
mundo como agente transformador. Segue seu sonho e faz sua própria
história. À medida que vai conhecendo novos locais, novos fenômenos,
vai perdendo o medo do desconhecido e adquirindo poder. Um poder que
as outras gaivotas do bando não estavam preparadas para ter, nem
para aceitar que outros tivessem, pois cada elemento do bando
constrói seu conhecimento de acordo com sua visão de mundo.
Seguindo esquemas rígidos, o bando acredita estar
defendendo a sobrevivência da população, e são todos fiéis a esse
pacto, rejeitando quem a ele não se submeta. E Fernão não se
submeteu, mas conseguiu sair do raciocínio ingênuo, perscrutando
aquilo que o senso comum não vê. Percebeu que podia ir muito além do
que o bando sabia e fazia. Ousou, desafiou seus próprios limites e
queria compartilhar seu conhecimento. Mas foi impedido de comunicar
suas conquistas às demais gaivotas que, submissas, o renegaram,
permanecendo no comodismo daqueles que são comandados, não tomam
decisões e nem sequer se responsabilizam pelas próprias ações.
Simplesmente são conduzidos.
E os poderosos querem conduzir Fernão: deram-lhe uma
oportunidade para renegar suas próprias crenças e aderir aos
costumes do grupo, submetendo-se à tradição sem questionar. Isso é
impossível para quem quer agir com liberdade e autonomia. E Fernão
não quis que se fizesse sua inclusão com perda da qualidade; não
permitiu que o desmobilizassem. Ao contrário, ele queria desvendar
os mecanismos do poder para o restante do bando; queria que
percebessem a trama que estava posta mas não era constatada.
Por isso foi renegado, banido. Seu comportamento certamente
acabaria por influenciar os demais, que teriam nele um exemplo. A
classe dominante, no entanto, nada cedeu; continuou dando a diretriz
e mantendo o nível cultural do bando até onde lhe convinha, não
permitindo qualquer ameaça à sua soberania. Aos anciões interessava
a manutenção do status quo. Assim, conseguiram manter
estritamente sob seu comando todo o bando, com exceção de Fernão,
que não conseguiu mobilizar seus pares.
Seguir Fernão seria a chave para o acesso do bando ao
conhecimento e ao poder. Se o bando o seguisse e atuasse com ele em
situações que fossem se tornando cotidianas, ocorreria o que Rubem
Alves sugere nas entrelinhas: as gaivotas adquiririam sabedoria e
quebrariam as amarras da ignorância e da subserviência, tomando as
rédeas de seu próprio destino.
Extrapolando para nossa sociedade, percebemos tristemente
que amarras diversas nos cerceiam e que, à semelhança do que ocorre
com o bando de Fernão, ainda não estamos suficientemente preparados,
subsidiados, para reagir como um todo. Alguns Fernãos surgem cá e
lá, mas ficam sufocados diante da ignorância e da ausência de uma
vontade sólida de lutar pela liberdade e pela autonomia.
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Joana
Maria R. Di Santo- Mestre em Educação, Psicopedagoga, Pedagoga
com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de
Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de
São Paulo, Professora Universitária ministrando disciplinas do Curso
de Pedagogia.e-mail:
cred@centrorefeducacional.com.br |
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