Série: Contribuições do Cinema para a Ação Docente

Parte 4

Prof. Ms. Joana Maria R. Di Santo

O CONHECIMENTO COMO CHAVE PARA O PODER

Articulação entre os vídeos: Conversando com quem gosta de ensinar (Rubem Alves) e Fernão Capelo Gaivota

Conversando com quem gosta de ensinar, Rubem Alves nos diz que muito do que se ensina tem o objetivo de tornar desnecessário o pensamento, porque a receita do saber torna secundário o raciocínio. É o que acontece com as gaivotas do bando de Fernão; agem sem refletir, seguindo as receitas dos anciões, dando continuidade à tradição, incondicionalmente, incontestavelmente. É como se possuíssem asas de galinha e não conseguissem voar, pois não saem dos rígidos esquemas pré - estabelecidos; não ousam, ficam sempre iguais, permanecem indistintas, comuns, previsíveis.

Fernão Capelo Gaivota, no entanto, é diferente; ele se destaca do bando porque transforma suas asas de gaivota em asas de condor, através da percepção das suas potencialidades e possibilidades; da ousadia para criar, interpretar, articular.

Queria descobrir o real sentido de sua vida; queria conhecer outros lugares. Sozinho, busca seu caminho e desfruta da liberdade de ser, decidir, nadar, voar. Reflete como bate suas asas e como poderia ser se conseguisse voar bem mais alto do que todas as outras gaivotas. E consegue. Adquire conhecimento. Encontra muitas coisas que mudarão sua vida. Ele sabe que a vida pacata do bando não é a única possível e não aceita a mediocridade. Como não há qualquer gaivota que lhe sirva de modelo, usa seus próprios recursos para superar-se. Ao fracassar, reflete sobre a coragem que tem de tentar sempre ser ele mesmo. Procura forças e estímulos dentro de si mesmo para reagir. E reage voando cada vez mais alto, vencendo obstáculos: tempestades, ondas imensas, escuridão. Aprende.

 

Esse conhecimento permitiu-lhe ir descartando coisas com que não concordava mais. Foi desarraigando preconceitos. Fernão aprendeu a aprender, forma privilegiada de conhecimento.

 

Faz reflexão sobre si mesmo: Quem sou eu? Qual é o meu destino? Reflete sobre suas tentativas, ousadia e coragem. E sonha com novas possibilidades.

 

Para Rubem Alves a educação não começa na ação, mas no sonho. E Fernão começa pelo sonho de superar as próprias limitações. Nesse momento, estaria fazendo uso da fruição, conforme classificou Santo Agostinho, uma das inteligências mais brilhantes que o mundo já produziu. É como se Fernão tivesse que comer os frutos de uma árvore, os quais precisam ser comidos. É o carpe diem, que para Fernão é voar cada vez mais alto, no escuro, nas tempestades, nos mais longínquos locais. Superar-se a si mesmo é o seu gozo.

 

Como a aranha descrita por Rubem Alves, Fernão não caminha sobre bases sólidas, mas tira um fio de seu próprio corpo e se lança no abismo, arriscando tudo. Quer encontrar um fundamento para sua vida; quer aperfeiçoar cada vez mais seu vôo e, à medida que encontra mais verdades, encontra mais possibilidades e enfrenta maiores desafios.

 

Agindo em busca da verdade, se afasta da superstição e das amarras da ignorância. Afasta-se também da normalidade porque se distancia das demais gaivotas do bando, que, obedientes e passivas, seguiam rigorosamente as ordens dos anciões, que detinham o poder.

 

Utiliza o conhecimento adquirido para se posicionar no mundo como agente transformador. Segue seu sonho e faz sua própria história. À medida que vai conhecendo novos locais, novos fenômenos, vai perdendo o medo do desconhecido e adquirindo poder. Um poder que as outras gaivotas do bando não estavam preparadas para ter, nem para aceitar que outros tivessem, pois cada elemento do bando constrói seu conhecimento de acordo com sua visão de mundo.

 

Seguindo esquemas rígidos, o bando acredita estar defendendo a sobrevivência da população, e são todos fiéis a esse pacto, rejeitando quem a ele não se submeta. E Fernão não se submeteu, mas conseguiu sair do raciocínio ingênuo, perscrutando aquilo que o senso comum não vê. Percebeu que podia ir muito além do que o bando sabia e fazia. Ousou, desafiou seus próprios limites e queria compartilhar seu conhecimento. Mas foi impedido de comunicar suas conquistas às demais gaivotas que, submissas, o renegaram, permanecendo no comodismo daqueles que são comandados, não tomam decisões e nem sequer se responsabilizam pelas próprias ações. Simplesmente são conduzidos.

 

E os poderosos querem conduzir Fernão: deram-lhe uma oportunidade para renegar suas próprias crenças e aderir aos costumes do grupo, submetendo-se à tradição sem questionar. Isso é impossível para quem quer agir com liberdade e autonomia. E Fernão não quis que se fizesse sua inclusão com perda da qualidade; não permitiu que o desmobilizassem. Ao contrário, ele queria desvendar os mecanismos do poder para o restante do bando; queria que percebessem a trama que estava posta mas não era constatada.

 

Por isso foi renegado, banido. Seu comportamento certamente acabaria por influenciar os demais, que teriam nele um exemplo. A classe dominante, no entanto, nada cedeu; continuou dando a diretriz e mantendo o nível cultural do bando até onde lhe convinha, não permitindo qualquer ameaça à sua soberania. Aos anciões interessava a manutenção do status quo. Assim, conseguiram manter estritamente sob seu comando todo o bando, com exceção de Fernão, que não conseguiu mobilizar seus pares.

 

Seguir Fernão seria a chave para o acesso do bando ao conhecimento e ao poder. Se o bando o seguisse e atuasse com ele em situações que fossem se tornando cotidianas, ocorreria o que Rubem Alves sugere nas entrelinhas: as gaivotas adquiririam sabedoria e quebrariam as amarras da ignorância e da subserviência, tomando as rédeas de seu próprio destino.

 

Extrapolando para nossa sociedade, percebemos tristemente que amarras diversas nos cerceiam e que, à semelhança do que ocorre com o bando de Fernão, ainda não estamos suficientemente preparados, subsidiados, para reagir como um todo. Alguns Fernãos surgem cá e lá, mas ficam sufocados diante da ignorância e da ausência de uma vontade sólida de lutar pela liberdade e pela autonomia.

Joana Maria R. Di Santo- Mestre em Educação, Psicopedagoga, Pedagoga
com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de São Paulo, Professora Universitária ministrando disciplinas do Curso de Pedagogia.e-mail: cred@centrorefeducacional.com.br

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atualizado/setembro/2007