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Os sete saberes necessários à educação do futuro |
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Edgar Morin
Publicado no Boletim da SEMTEC-MEC Informativo
Eletrônico da
Secretaria de Educação Média e Tecnológica – Ano 1 – Número 4 –
junho/julho de 2000 |
Introdução
Os sete saberes necessários à educação do futuro não têm
nenhum programa educativo, escolar ou universitário. Aliás, não estão
concentrados no primário, nem no secundário, nem no ensino universitário,
mas abordam problemas específicos para cada um desses níveis. Eles dizem
respeito aos setes buracos negros da educação, completamente ignorados,
subestimados ou fragmentados nos programas educativos. Programas esses
que, na minha opinião, devem ser colocados no centro das preocupações
sobre a formação dos jovens, futuros cidadãos.
O Conhecimento
O primeiro buraco negro diz respeito ao conhecimento.
Naturalmente, o ensino fornece conhecimento, fornece saberes. Porém,
apesar de sua fundamental importância, nunca se ensina o que é, de fato, o
conhecimento. E sabemos que os maiores problemas neste caso são o erro e a
ilusão.
Ao examinarmos as crenças do passado, concluímos que a
maioria contém erros e ilusões. Mesmo quando pensamos em vinte anos atrás,
podemos constatar como erramos e nos iludimos sobre o mundo e a realidade.
E por que isso é tão importante? Porque o conhecimento nunca é um reflexo
ou espelho da realidade. O conhecimento é sempre uma tradução, seguida de
uma reconstrução. Mesmo no fenômeno da percepção, através do qual os olhos
recebem estímulos luminosos que são transformados, decodificados,
transportados a um outro código, que transita pelo nervo ótico, atravessa
várias partes do cérebro para, enfim, transformar aquela informação
primeira em percepção. A partir deste exemplo, podemos concluir que a
percepção é uma reconstrução.
Tomemos um outro exemplo de percepção constante: a
imagem do ponto de vista da retina. As pessoas que estão próximas parecem
muito maiores do que aquelas que estão mais distantes, pois à distância, o
cérebro não realiza o registro e termina por atribuir uma dimensão
idêntica para todas as pessoas. Assim como os raios ultravioletas e
infravermelhos que nós não vemos, mas sabemos que estão aí e nos impõem
uma visão segundo as suas incidências. Portanto, temos percepções, ou
seja, reconstruções, traduções da realidade. E toda tradução comporta o
risco de erro. Como dizem os italianos "tradotore/traditore".
Também sabemos que não há nenhuma diferença intrínseca
entre uma percepção e uma alucinação. Por exemplo: se tenho uma alucinação
e vejo Napoleão ou Júlio César, não há nada que me diga que estou
enganado, exceto o fato de saber que eles estão mortos. São os outros que
vão me dizer se o que vejo é verdade ou não. Quero dizer com isso que
estamos sempre ameaçados pela alucinação. Até nos processos de leitura
isto acontece. Nós sabemos que não seguimos a linha do que está escrito,
pois, às vezes, nossos olhos saltam de uma palavra para outra e
reconstroem o conjunto de uma maneira quase alucinatória. Neste momento, é
o nosso espírito que colabora com o que nós lemos. E não reconhecemos os
erros porque deslizamos neles. O mesmo acontece, por exemplo, quando há um
acidente de carro. As versões e as visões do acidente são completamente
diferentes, principalmente pela emoção e pelo fato das pessoas estarem em
ângulos diferentes.
No plano histórico há erros, se me permitem o jogo de
palavras, histéricos. Tomemos um exemplo um pouco distante de nós: os
debates sobre a Primeira Guerra Mundial.Uma época em que a França e a
Alemanha tinham partidos socialistas fortes, potentes e muito pacifistas,
e que, evidentemente, eram contrários à guerra que se anunciava. Mas, a
partir do momento em que se desencadeou a guerra, os dois partidos se
lançaram, massivamente a uma campanha de propaganda, cada um imputando ao
outro os atos mais ignóbeis. Isto durou até o fim da guerra. Hoje, podemos
constatar com os eventos trágicos do Oriente Médio a mesma maneira de
tratar a informação. Cada um prefere camuflar a parte que lhe é
desvantajosa para colocar em relevo a parte criminosa do outro.
Este problema se apresenta de uma maneira perceptível e
muito evidente, porque as traduções e as reconstruções são também um risco
de erro e muitas vezes o maior erro é pensar que a idéia é a realidade. E
tomar a idéia como algo real é confundir o mapa com o terreno.
Outras causas de erro são as diferenças culturais,
sociais e de origem. Cada um pensa que suas idéias são as mais evidentes e
esse pensamento leva a idéias normativas. Aquelas que não estão dentro
desta norma, que não são consideradas normais, são julgadas como um
desvio patológico e são taxadas como ridículas. Isso não ocorre somente no
domínio das grandes religiões ou das ideologias políticas, mas também das
ciências. Quando Watson e Crick decodificaram a estrutura do código
genético, o DNA (ácido desoxirribonucléico), surpreenderam e
escandalizaram a maioria dos biólogos, que jamais imaginavam que isto
poderia ser transcrito em moléculas químicas. Foi preciso muito tempo para
que essas idéias pudessem ser aceitas.
Na realidade, as idéias adquirem consistência como os
deuses nas religiões. É algo que nos envolve e nos domina a ponto de nos
levar a matar ou morrer. Lenin dizia: "os fatos são teimosos, mas, na
realidade, as idéias são ainda mais teimosas do que os fatos e resistem
aos fatos durante muito tempo". Portanto, o problema do conhecimento não
deve ser um problema restrito aos filósofos. É um problema de todos e cada
um deve levá-lo em conta desde muito cedo e explorar as possibilidades de
erro para ter condições de ver a realidade, porque não existe receita
milagrosa.
O Conhecimento Pertinente
O segundo buraco negro é que não ensinamos as condições
de um conhecimento pertinente, isto é, de um conhecimento que não
mutila o seu objeto. Nós seguimos, em primeiro lugar, um mundo formado
pelo ensino disciplinar. É evidente que as disciplinas de toda ordem
ajudaram o avanço do conhecimento e são insubstituíveis. O que existe
entre as disciplinas é invisível e as conexões entre elas também são
invisíveis. Mas isto não significa que seja necessário conhecer somente
uma parte da realidade. É preciso ter uma visão capaz de situar o
conjunto. É necessário dizer que não é a quantidade de informações, nem a
sofisticação em Matemática que podem dar sozinhas um conhecimento
pertinente, mas sim a capacidade de colocar o conhecimento no contexto.
A economia, que é das ciências humanas, a mais avançada,
a mais sofisticada, tem um poder muito fraco e erra muitas vezes nas suas
previsões, porque está ensinando de modo a privilegiar o cálculo. Com
isso, acaba esquecendo os aspectos humanos, como o sentimento, a paixão, o
desejo, o temor, o medo. Quando há um problema na bolsa, quando as ações
despencam, aparece um fator totalmente irracional que é o pânico, e que,
freqüentemente, faz com que o fator econômico tenha a ver com o humano,
ligando-se, assim, à sociedade, à psicologia, à mitologia. Essa realidade
social é multidimensional e o econômico é apenas uma dimensão dessa
sociedade. Por isso, é necessário contextualizar todos os dados.
Se não houver, por exemplo, a contextualização dos
conhecimentos históricos e geográficos, cada vez que aparecer um
acontecimento novo que nos fizer descobrir uma região desconhecida, como o
Kosovo, o Timor ou a Serra Leoa, não entenderemos nada. Portanto, o ensino
por disciplina, fragmentado e dividido, impede a capacidade natural que o
espírito tem de contextualizar. E é essa capacidade que deve ser
estimulada e desenvolvida pelo ensino, a de ligar as partes ao todo e o
todo às partes. Pascal dizia, já no século XVII: "não se pode conhecer as
partes sem conhecer o todo, nem conhecer o todo sem conhecer as partes".
O contexto tem necessidade, ele mesmo, de seu próprio
contexto. E o conhecimento, atualmente, deve se referir ao global. Os
acidentes locais têm repercussão sobre o conjunto e as ações do conjunto
sobre os acidentes locais. Isso foi comprovado depois da guerra do Iraque,
da guerra da Iugoslávia e, atualmente, pode ser verificado com o conflito
do Oriente Médio.
A Identidade Humana
O terceiro aspecto é a identidade humana. É
curioso que nossa identidade seja completamente ignorada pelos programas
de instrução. Podemos perceber alguns aspectos do homem biológico em
Biologia, alguns aspectos psicológicos em Psicologia, mas a realidade
humana é indecifrável. Somos indivíduos de uma sociedade e fazemos parte
de uma espécie. Mas, ao mesmo tempo em que fazemos parte de uma sociedade,
temos a sociedade como parte de nós, pois desde o nosso nascimento a
cultura nos imprime. Nós somos de uma espécie, mas ao mesmo tempo a
espécie é em nós e depende de nós. Se nos recusamos a nos relacionar
sexualmente com um parceiro de outro sexo, acabamos com a espécie.
Portanto, o relacionamento entre indivíduo-sociedade-espécie é como a
trindade divina, um dos termos gera o outro e um se encontra no outro. A
realidade humana é trinitária.
Eu acredito ser possível a convergência entre todas as
ciências e a identidade humana. Um certo número de agrupamentos
disciplinares vai favorecer esta convergência. É necessário reconhecer
que, na segunda metade do século XX, houve uma revolução científica,
reagrupando as disciplinas em ciências pluridisciplinares. Assim, há a
cosmologia, as ciências da terra, a ecologia e a pré-história.
Por outro lado, as ciências da terra nos inscrevem neste
planeta formado por fragmentos cósmicos, resultados de uma explosão de
sóis anteriores. Resta saber como estes fragmentos reunidos e aglomerados
puderam criar uma tal organização, uma auto-organização, para nos dar este
planeta. É necessário mostrar que ele gerou a vida, e a nós somos, filhos
da vida. A biologia, com a teoria da evolução, nos prova como trazemos
dentro de nós, efetivamente, o processo de desenvolvimento da primeira
célula vivente, que se multiplicou e se diversificou.
Quando sonhamos com nossa identidade, devemos pensar que
temos partículas que nasceram no despertar do universo. Temos átomos de
carbono que se formaram em sóis anteriores ao nosso, pelo encontro de três
núcleos de hélio que se constituíram em moléculas e neuromoléculas na
terra. Somos todos filhos do cosmos, mas nos transformamos em estranhos
através de nosso conhecimento e de nossa cultura. Portanto, é preciso
ensinar a unidade dos três destinos, porque somos indivíduos, mas como
indivíduos somos, cada um, um fragmento da sociedade e da espécie Homo
sapiens, à qual pertencemos. E o importante é que somos uma parte da
sociedade, uma parte da espécie, seres desenvolvidos sem os quais a
sociedade não existe. A sociedade só vive com essas interações.
É importante, também, mostrar que, ao mesmo tempo em que
o ser humano é múltiplo, ele é parte de uma unidade. Sua estrutura mental
faz parte da complexidade humana. Portanto, ou vemos a unidade do gênero e
esquecemos a diversidade das culturas e dos indivíduos, ou vemos a
diversidade das culturas e não vemos a unidade do ser humano. Esse
problema vem causando polêmicas desde o século XVIII, quando Voltaire
disse: "os chineses são iguais a nós, têm paixões, choram". E Herbart, o
pensador alemão, afirmou: "entre uma cultura e outra não há comunicação,
os seres são diferentes". Os dois tinham razão, mas na realidade essas
duas verdades têm que ser articuladas. Nós temos os elementos genéticos da
nossa diversidade e, é claro, os elementos culturais da nossa diversidade.
É preciso lembrar que rir, chorar, sorrir, não são atos
aprendidos ao longo da educação, são inatos, mas modulados de acordo com a
educação. Heigerfeld fez uma observação sobre uma jovem surda-muda de
nascença que ria, chorava e sorria. Atualmente, estudos demonstram que o
feto começa a sorrir no ventre da mãe. Talvez porque não saiba o que o
espera depois... Mas isso nos permite entender a nossa realidade, nossa
diversidade e singularidade.
Chegamos, então, ao ensino da literatura e da poesia.
Elas não devem ser consideradas como secundárias e não essenciais. A
literatura é para os adolescentes uma escola de vida e um meio para se
adquirir conhecimentos. As ciências sociais vêem categorias e não
indivíduos sujeitos a emoções, paixões e desejos. A literatura, ao
contrário, como nos grandes romances de Tolstoi, aborda o meio social, o
familiar, o histórico e o concreto das relações humanas com uma força
extraordinária. Podemos dizer que as telenovelas também nos falam sobre
problemas fundamentais do homem; o amor, a morte, a doença, o ciúme, a
ambição, o dinheiro. Temos que entender que todos esses elementos são
necessários para entender que a vida não é aprendida somente nas ciências
formais. E a literatura tem a vantagem de refletir sobre a complexidade do
ser humano e sobre a quantidade incrível de seus sonhos.
Podemos, então, compreender a complexidade humana
através da literatura. A poesia nos ensina a qualidade poética da vida,
essa qualidade que nós sentimos diante de fatos da realidade. Como, por
exemplo, os espetáculos da natureza: o céu de Brasília que é tão bonito. A
vida não deve ser uma prosa que se faça por obrigação. A vida é viver
poeticamente na paixão, no entusiasmo.
Para que isso aconteça, devemos fazer convergir todas as
disciplinas conhecidas para a identidade e para a condição humana,
ressaltando a noção de homo sapiens; o homem racional e fazedor de
ferramentas, que é, ao mesmo tempo, louco e está entre o delírio e o
equilíbrio, nesse mundo de paixões em que o amor é o cúmulo da loucura e
da sabedoria.
O homem não se define somente pelo trabalho, mas também
pelo jogo. Não só as crianças, como também os adultos gostam de jogar. Por
isso vemos partidas de futebol. Nós somos Homo ludens, além de
Homo economicus. Não vivemos só em função do interesse econômico. Há,
também, o homo mitologicus, isto é, vivemos em função de mitos e
crenças. Enfim o homem é prosaico e poético. Como dizia Hölderling: "O
homem habita poeticamente na terra, mas também prosaicamente e se a prosa
não existisse, não poderíamos desfrutar da poesia".
A Compreensão Humana
O quarto aspecto é sobre a compreensão humana.
Nunca se ensina sobre como compreender uns aos outros, como compreender
nossos vizinhos, nossos parentes, nossos pais. O que significa
compreender?
A palavra compreender vem do latim, compreendere,
que quer dizer: colocar junto todos os elementos de explicação, ou
seja, não ter somente um elemento de explicação, mas diversos. Mas a
compreensão humana vai além disso, porque, na realidade, ela comporta uma
parte de empatia e identificação. O que faz com que se compreenda alguém
que chora, por exemplo, não é analisar as lágrimas no microscópio, mas
saber o significado da dor, da emoção. Por isso, é preciso compreender a
compaixão, que significa sofrer junto. É isto que permite a verdadeira
comunicação humana.
A grande inimiga da compreensão é a falta de preocupação
em ensiná-la. Na realidade, isto está se agravando, já que o
individualismo ganha um espaço cada vez maior. Estamos vivendo numa
sociedade individualista, que favorece o sentido de responsabilidade
individual, que desenvolve o egocentrismo, o egoísmo e que,
consequentemente, alimenta a autojustificação e a rejeição ao próximo. A
redução do outro, a visão unilateral e a falta de percepção sobre a
complexidade humana são os grandes empecilhos da compreensão. Outro
aspecto da incompreensão é a indiferença. E, por este lado, é interessante
abordar o cinema, que os intelectuais tanto acusam de alienante. Na
verdade, o cinema é uma arte que nos ensina a superar a indiferença, pois
transforma em heróis os invisíveis sociais, ensinando-nos a vê-los por um
outro prisma. Charlie Chaplin, por exemplo, sensibilizou platéias inteiras
com o personagem do vagabundo. Outro exemplo é Coppola, que popularizou os
chefes da Máfia com "O Chefão". No teatro, temos a complexidade dos
personagens de Shakspeare: reis, gangsters, assassinos e ditadores. No
cinema, como na filosofia de Heráclito: "Despertados, eles dormem".
Estamos adormecidos, apesar de despertos, pois diante da realidade tão
complexa, mal percebemos o que se passa ao nosso redor.
Por isso, é importante este quarto ponto: compreender
não só os outros como a si mesmo, a necessidade de se auto-examinar, de
analisar a autojustificação, pois o mundo está cada vez mais devastado
pela incompreensão, que é o câncer do relacionamento entre os seres
humanos.
A Incerteza
O quinto aspecto é a incerteza. Apesar de, nas
escolas, ensinar-se somente as certezas, como a gravitação de Newton e o
eletromagnetismo, atualmente a ciência tem abandonado determinados
elementos mecânicos para assimilar o jogo entre certeza e incerteza, da
micro-física às ciências humanas. É necessário mostrar em todos os
domínios, sobretudo na história, o surgimento do inesperado. Eurípides
dizia no fim de três de suas tragédias que: "os deuses nos causam grandes
surpresas, não é o esperado que chega e sim o inesperado que nos
acontece". É a velha idéia de 2.500 anos, que nós esquecemos sempre.
As ciências mantêm diálogos entre dados hipotéticos e
outros dados que parecem mais prováveis. Os processos físicos, assim como
outros também, pressupõem variações que nos levam à desordem caótica ou à
criação de uma nova organização, como nas teorias sobre a incerteza de
Prigogine, baseadas nos exemplos dos turbilhões de Born. Analisando
retroativamente a história da vida, constata-se que ela não foi linear,
que não teve uma evolução de baixo para cima. A evolução segundo Darwin
foi uma evolução composta de ramificações, a exemplo do mundo vegetal e o
mundo animal. O homem vem de uma dessas ramificações e conseguiu chegar à
consciência e à inteligência, mas não somos a meta da evolução, fazemos
parte desse processo. A história da vida foi, na verdade, marcada por
catástrofes.
As duas guerras mundiais destruíram muito na primeira
metade do século XX. Três grandes impérios da época, por exemplo, o
romano-otomano, o austro-húngaro e o soviético, desapareceram.
Isto nos demonstra a necessidade de ensinar o que chamamos de ecologia da
ação: a atitude que se toma quando uma ação é desencadeada e escapa ao
desejo e às intenções daquele que a provocou, desencadeando influências
múltiplas que podem desviá-la até para o sentido oposto ao intencionado.
A história humana está repleta de exemplos dessa natureza. O mais evidente
no final do século XX foi o projeto político de Gorbatchev, que pretendeu
reformar o sistema político da União Soviética, mas acabou provocando o
começo de sua própria desagregação e implosão.
Assim tem acontecido em todas as etapas da história. O
inesperado aconteceu e acontecerá, porque não temos futuro e não temos
certeza nenhuma do futuro. As previsões não foram concretizadas, não
existe determinismo do progresso. Os espíritos, portanto, têm que ser
fortes e armados para enfrentarem essa incerteza e não se desencorajarem.
Essa incerteza é uma incitação à coragem. A aventura humana não é
previsível, mas o imprevisto não é totalmente desconhecido. Somente agora
se admite que não se conhece o destino da aventura humana. É necessário
tomar consciência de que as futuras decisões devem ser tomadas contando
com o risco do erro e estabelecer estratégias que possam ser corrigidas no
processo da ação, a partir dos imprevistos e das informações que se tem.
A Condição Planetária
O sexto aspecto é a condição planetária,
sobretudo na era da globalização no século XX – que começou, na verdade no
século XVI com a colonização da América e a interligação de toda a
humanidade. Esse fenômeno que estamos vivendo hoje, em que tudo está
conectado, é um outro aspecto que o ensino ainda não tocou, assim como o
planeta e seus problemas, a aceleração histórica, a quantidade de
informação que não conseguimos processar e organizar.
Este ponto é importante porque existe, neste momento, um
destino comum para todos os seres humanos. O crescimento da ameaça letal
se expande em vez de diminuir: a ameaça nuclear, a ameaça ecológica, a
degradação da vida planetária. Ainda que haja uma tomada de consciência de
todos esses problemas, ela é tímida e não conduziu ainda a nenhuma decisão
efetiva. Por isso, faz-se urgente a construção de uma consciência
planetária.
É necessária uma certa distância em relação ao imediato
para podermos compreendê-lo. E, atualmente, dada a aceleração e a
complexidade do mundo, é quase impossível. Mas, faz-se necessário
ressaltar, é esta a dificuldade. É necessário ensinar que não é suficiente
reduzir a um só a complexidade dos problemas importantes do planeta, como
a demografia, ou a escassez de alimentos, ou a bomba atômica, ou a
ecologia. Os problemas estão todos amarrados uns aos outros.
Daqui para frente, existem, sobretudo, os perigos de vida e morte para a
humanidade, como a ameaça da arma nuclear, como a ameaça ecológica, como o
desencadeamento dos nacionalismos acentuados pelas religiões. É preciso
mostrar que a humanidade vive agora uma comunidade de destino comum.
A Antropo-ética
O último aspecto é o que vou chamar de antropo-ético,
porque os problemas da moral e da ética diferem a depender da cultura e da
natureza humana. Existe um aspecto individual, outro social e outro
genético, diria de espécie. Algo como uma trindade em que as terminações
são ligadas: a antropo-ética. Cabe ao ser humano desenvolver, ao mesmo
tempo, a ética e a autonomia pessoal (as nossas responsabilidades
pessoais), além de desenvolver a participação social (as responsabilidades
sociais), ou seja, a nossa participação no gênero humano, pois
compartilhamos um destino comum.
A antropo-ética tem um lado social que não tem sentido se não for na
democracia, porque a democracia permite uma relação indivíduo-sociedade e
nela o cidadão deve se sentir solidário e responsável. A democracia
permite aos cidadãos exercerem suas responsabilidades através do voto.
Somente assim é possível fazer com que o poder circule, de forma que
aquele que foi uma vez controlado, terá a chance de controlar. Porque a
democracia é, por princípio, um exercício de controle.
Não existe, evidentemente, democracia absoluta. Ela é
sempre incompleta. Mas sabemos que vivemos em uma época de regressão
democrática, pois o poder tecnológico agrava cada vez mais os problemas
econômicos. Na verdade, é importante orientar e guiar essa tomada de
consciência social que leva à cidadania, para que o indivíduo possa
exercer sua responsabilidade.
Por outro lado, a ética do ser humano está se desenvolvendo através das
associações não-governamentais, como os Médicos Sem Fronteiras, o
Greenpeace, a Aliança pelo Mundo Solidário e tantas outras que trabalham
acima de entidades religiosas, políticas ou de Estados nacionais,
assistindo aos países ou às nações que estão sendo ameaçadas ou em graves
conflitos. Devemos conscientizar a todos sobre essas causas tão
importantes, pois estamos falando do destino da humanidade.
Seremos capazes de civilizar a terra e fazer com que ela
se torne uma verdadeira pátria? Estes são os sete saberes necessários ao
ensino. E não digo isso para modificar programas. Na minha opinião, não
temos que destruir disciplinas, mas sim integrá-las, reuni-las em uma
ciência como, por exemplo, as ciências da terra (a sismologia, a
vulcanologia, a meteorologia), todas elas articuladas em uma concepção
sistêmica da terra.
Penso que tudo deva estar integrado para permitir uma mudança de
pensamento; para que se transforme a concepção fragmentada e dividida do
mundo, que impede a visão total da realidade. Essa visão fragmentada faz
com que os problemas permaneçam invisíveis para muitos, principalmente
para muitos governantes.
E hoje que o planeta já está, ao mesmo tempo, unido e fragmentado, começa
a se desenvolver uma ética do gênero humano, para que possamos superar
esse estado de caos e começar, talvez, a civilizar a terra.
Edgard Morin é o pai da teoria
da complexidade, explicada nos quatro livros da série
O Método.

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