Supervisão Escolar: semeando neste lugar

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*Carla Mantay

“Uma grande escola exigirá docentes competentes, abertos para o mundo e para  o saber, sempre de novo redefinidos. Docentes e estudantes conscientemente comprometidos. Uma grande escola exigirá espaços físicos, culturais, sociais e artísticos, equipados que abriguem toda a sabedoria acumulada da humanidade e toda a esperança de futuro – que não seja continuidade do presente, porque este está em ritmo de barbárie – mas seja sua ultrapassagem. Uma grande escola exigirá tempo. Tempo de encontro, de encanto, de canto, de poesia, de arte, de cultura, de lazer, de discussão, de gratuidade, de ética e de estética, de bem-estar e de bem-querer e de beleza. Porque escola grande se faz com grandes cabeças (é certo!), mas também com grandes corações, com muitos braços, que se estendem em abraços que animam caminhadas para grandes horizontes.”  REDIN(1999:07)

Peço licença para iniciar com este texto lindíssimo do professor Euclides Redin, no qual está contido todo o trabalho que procuramos ao longo de quatro anos dar continuidade na Escola de Ensino Fundamental Flores da Cunha.

Neste artigo a finalidade é de divulgar, ampliar e avançar nas reflexões que fazemos para a construção de uma escola pública de qualidade e inovar a cada ano, tornando o espaço escolar um lugar de prazer e saber e o supervisor como um semeador neste espaço. Sendo assim, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Flores da Cunha, localizada em Esteio com 1.200 alunos, distribuídos em três turnos,um total de 60 professores e 20 funcionários propõe um projeto político pedagógico ousado e inovador que desmistifica antigos paradigmas da educação. Na prática, viabilizamos nosso projeto através das salas ambientes, equivalência das disciplinas, relatórios de avaliação, ampliação do recreio, carga horária reduzida do professor garantindo o planejamento, reuniões pedagógicas semanais e projetos oferecidos tais como: Laboratório de Aprendizagem; Laboratório de Informática; Banda Marcial; Monitores Ecológicos; Grupos de Danças; Tradicionalista e Moderna, Autor Presente, Jornal da Escola, Leitura do Mundo; Leitura da Palavra e Arte nas séries iniciais. Esta construção só foi possível porque buscamos em nossa escola garantir espaços de participação efetiva de todos os envolvidos, através de uma gestão democrática, com direitos e deveres, que envolva todos os segmentos da comunidade escolar como: Conselho Escolar; Grêmio Estudantil; Conselhos de Classe Participativos; CPM; Equipe Diretiva; Conselho de Representantes de Turma. Nosso grande desafio é confrontar diariamente a teoria e a prática. O projeto não está concluído, pelo simples fato de termos já escrito e amplamente divulgado nossa proposta político-pedagógica para toda a comunidade. O mesmo está em andamento e sendo aprimorado a cada momento de estudo e reflexão que realizamos em diferentes espaços com os segmentos desta comunidade escolar.

 Esta grande escola já existia e o que fizemos na supervisão,  sempre gosto de destacar, foi fruto semeado por ela ao longo de seus quarenta e três anos e que ocupando o lugar da supervisão em 2001, junto com o grupo que ali se encontrava, nos coube coordenar um processo cada vez mais autêntico.

   A supervisão tem um papel político, pedagógico e de liderança no espaço escolar, penso que é necessário sempre ressaltarmos; sem desconsiderar o restante da equipe, mas o supervisor escolar deve ser inovador, ousado, criativo e sobretudo um profissional de educação comprometido com o seu grupo de trabalho. Ufa! Acham que é só isso? É quase uma perfeição? Não, temos de ter humildade também para aprender e ouvir quando o grupo fala, argumentos teóricos para garantir a continuidade da proposta e a sabedoria de recuar quando sentimos que o grupo ainda necessita de mais tempo. Tempo? O suficiente para continuarmos a caminhada e durante o trajeto irmos pensando sobre nossas ações. (Reflexão feita com a professora Ana Freitas durante uma jornada pedagógica no município de Esteio).

Assim iniciou-se em 2001, baseado na Carta Constituinte Municipal e nas pesquisas realizadas pela escola com a comunidade, a construção do projeto político pedagógico do Flôres.

Os procedimentos para viabilizar a construção foram: A formação de uma comissão para dar continuidade à construção da proposta com representante de todos os segmentos, sistematização da pesquisa com as entrevistas (de pais, alunos, professores e funcionários), reuniões com os segmentos da Comunidade Escolar, encontros sobre filosofia, seminário com todos os segmentos da escola para a leitura, discussão e aprovação da proposta, análise do texto da “Constituinte Escolar” e leis específicas  sob a responsabilidade  e coordenação do Serviço de Supervisão Escolar.

·                Formação do grupo para a elaboração das regras

·                Divulgação do projeto político-pedagógico e da nova filosofia da escola para todos os segmentos da comunidade escolar;

·                Reorganização da escola para implementar a nova proposta político-pedagógica;

·                Trabalho para aprovação e divulgação das regras da escola com todos os segmentos;

·                Discussões para as mudanças do sistema de avaliação

Temos na supervisão uma responsabilidade enorme na coordenação destes processos na escola, muitas vezes quando se pensava que tudo estava bem, entrava-se na sala dos professores, nas discussões do dia-a-dia e se percebia que o discurso, havia mudado, mas a prática não,  e aí, temos que ter maturidade, sensibilidade e muita firmeza para sabermos onde queremos chegar. Anotava algumas falas dos professores e estas me faziam pensar e agir para os próximos momentos de estudo.

A sala, o espaço físico da supervisão também é um fator importante, a porta deve estar aberta, a mesa deve ser redonda, os livros colocados à disposição de todos e o supervisor refletindo sempre sobre suas ações, revendo seus referenciais e avançando do trabalho individual para a construção coletiva, do burocrático para o participativo e do julgamento para a valorização.

Lembro-me bem, recém-chegada na escola, minhas reuniões pedagógicas semanais com os professores eram de avisos e organizações de eventos, quando um dia uma educadora, professora Audelina Pires da Costa, entra em minha sala e diz: “Nossas reuniões estão horríveis”. Fiquei chocada, saí com vontade de não mais voltar, dias sem sair da minha sala refletindo, após indignei-me comigo mesma e (com o grupo, pois supervisor também é gente!) Pensei, o que estou fazendo? Chamei a professora e questionei sobre o que ela se referia e pude perceber que a mesma fazia as questões em nome do grande grupo, queriam coordenação da supervisora e planejamento.  A partir deste episódio e das avaliações que começamos a realizar, as reuniões foram sendo construídas com o grupo e comecei a coordená-las, o grupo solicitou isto. (Tenho saudades deste grupo). Um grupo que falante, contestador, questionador e com um trabalho competente, coletivo, um grupo de Profissionais de Educação.

No ano de 2001 o serviço de Supervisão coordenou e participou de várias ações como:

·                Retomada do Projeto político-Pedagógico da Escola que vinha sendo construído ao longo dos anos anteriores;

·                Realização de Reuniões Pedagógicas de Estudo e Planejamento com os professores;

·                Organização e Planejamento dos Planos de Estudos e Reformulações de acordo com o Projeto Político-Pedagógico;

·                Articulação com diversos Projetos Pedagógicos;

·                Estudo, redação e organização do material para construção do Regimento escolar, juntamente com o Conselho Escolar e Comissão do Regimento.

No ano de 2002 o serviço de supervisão coordenou o processo de avaliação dos alunos  que conforme o Regimento da Escola houve por parte da comunidade escolar a opção  pelo Relatório Avaliativo em substituição às notas havendo vários momentos de estudo e de práticas em relação aos registros realizados pelos educadores.

“Os registros em avaliação são dados de uma história vivida por educadores com os educandos. Ao acompanhar vários alunos,em diferentes momentos de aprendizagem,é preciso registrar o que se observa de significativo como um recurso de memória diante da diversidade e um “exercício de prestar atenção ao processo”.”(Hoffmann,2001:175)

O ano de 2003 foi o momento de aprimorarmos cada vez mais nossos relatórios e nossas práticas,o movimento deste grupo de educadores e equipe,juntamente com funcionários,alunos e pais,foi sempre de avaliação das práticas e buscando mais estudo.Com postura sempre de aprendizagem e de humildade é que colocamos nosso projeto-político pedagógico para além dos portões de nossa escola,possibilitando termos um olhar sobre ele e que outros educadores pudessem aprender e nos ensinar.

“Se, na verdade, o sonho que nos anima é democrático e solidário,não é falando aos outros,de cima pra baixo,sobretudo,como se fôssemos os portadores da verdade a ser transmitida aos demais,que aprendemos a escutar,mas é escutando que aprendemos a falar com eles.”(Freire,1998:127)

Com este propósito inscrevemos nosso projeto-político pedagógico no III Congresso Internacional de Educação da Unisinos e na Faculdade Porto-Alegrense.Nos dois encontros tivemos a oportunidade de expor nossos avanços e desafios,debatendo em outros espaços o nosso projeto,que recebeu por parte dos participantes dos encontros muitas manifestações de incentivo e a certeza de que estamos caminhando em busca de uma educação transformadora,questionadora e compromissada.

       No ano de 2004,ampliamos a idéia de realizar diálogos com outros educadores e lançamos o I Semiflôres , “Nossas Propostas,nossos desafios e nossa prática,um seminário realizado pela escola,onde os autores ou atores eram nossos educadores,teve como objetivo divulgar a prática pedagógica de nossa Escola com a participação do professor Antônio Gouvêa em parceria com a Secretaria Municipal de Educação.

Atualmente estou afastada da escola,licenciada da Rede Municipal em virtude de uma transferência profissional de meu esposo,encontro-me no Rio de Janeiro,investindo em meu mestrado.

       Gostaria de encerrar este artigo com um trecho de uma música que marcou a construção de nosso projeto político-pedagógico e que expressa o que o grupo continua fazendo...

“Já sonhamos juntos semeando as canções no vento, quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar. Já choramos muito, muitos se perderam no caminho, mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer SOL DE PRIMAVERA” (GUEDES,1980).

Agradeço a todos que contribuíram com este texto.

Carla Mantay

Supervisora Escolar 2001 à 2004-E.M.E.F.Flôres da Cunha –Esteio-RS

Referências Bibliográficas

FREIRE,Paulo.Pedagogia da Autonomia:saberes necessários à prática educativa.São Paulo,SP:Editora Paz e Terra,1998.

GUEDES,Beto e BASTOS,Ronaldo.Sol de Primavera.CD “Beto Guedes ao Vivo”.Faixa 11,1980.

HOFFMANN,Jussara.Avaliar para Promover:as setas do caminho.Porto Alegre,RS:Editora Mediação,2002.

REDIN,Euclides.Nova Fisionomia da Escola Necessária.São Leopoldo,RS:Unisinos (mimeo.p07),1999.

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atualizado/setembro/2007