Tempos Globalizados

Pablo Rodrigo Bes Oliveira

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Pablo Rodrigo Bes Oliveira é bacharel em Administração e faz pós graduação em Gestão e Planejamento Escolar. Atualmente é diretor de uma Escola de Educação Infantil e trabalha em uma pesquisa sobre o convívio familiar versus o aumento no tempo de permanência das crianças nas escolas.

Eis aqui, portanto, o homem fora do nosso povo, fora da nossa humanidade. Ele está faminto, nada lhe pertence a não ser o instante, o prolongado instante da tortura...Ele sempre tem apenas uma coisa: seu sofrimento, mas não existe nada na face da terra que lhe possa servir de remédio, não há chão para ele colocar seus dois pés, não há apoio onde suas duas mãos se possam agarrar, e, assim, ele é menos aquinhoado do que o trapezista do music- hall, que pelo menos está pendurado por um fio.

Franz Kafka

        Há algum tempo atrás ouvi dizer e, logo após, aprendi que o mundo estava em transformação. Descobri que algo chamado “mercado” estava tornando-se cada vez mais forte e dominava os interesses de todas as nações. Me foi ensinado que, para sobreviver neste mercado capitalista e selvagem as nações precisavam unir-se em blocos geográficos e assim teriam mais força para o comércio internacional, bem como seriam mais fáceis a resolução de questões políticas, sociais e econômicas comuns aos países membro ou aliados. Segundo Schulz:

   Os blocos econômicos foram criados com a finalidade de desenvolver o comércio de   determinada região. Para alcançar esse objetivo, são eliminadas as barreiras alfandegárias, o que reduz o custo  dos produtos comercializados entre os países membros. (Schulz;1999:135)

          Pensando nestes aspectos isolados, ótimo, a união em blocos visando melhorar e desenvolver o comércio internacional, ou seja, uma sinergia de nações, vêm tecendo o início das relações globais. Ou seja, os países membros dos blocos formados podem negociar com qualquer outra nação do globo. Daí surge o termo globalização.

          Logo que tive contato com o termo “globalização” procurei ler alguns textos procurando formar um conceito que me satisfizesse. Li alguns livros com as mais diversas definições e contentei-me com a condição de se tratar de uma época onde estavam sendo facilitadas as relações entre os países, fossem elas econômicas, políticas e/ou sociais. Logo o mundo seria uma grande “aldeia global” e haveria a livre movimentação de recursos e onde as nações cresceriam e fortaleceriam seu comércio mútuo.

          Confesso que, de certa forma, essa visão pobre, ingênua e imatura me saciou, não me deixando enxergar de forma sistêmica pelas entrelinhas. E, como se  “ ya que “caminamos dormidos” voluntariamente através del processo de reconstrucción de las condiciones de la existencia humana...” (Jiménez;1998:4). Realmente podemos perceber que o mundo todo recebe a globalização como que envolto num sonambulismo, não notando que ela vinha realmente reconstruir as condições de existência humanas.

         Começamos agora a traçar novos conceitos em relação a globalização, olhando para os lados vemos outros enfoques a analisar, como: a cultura, a educação, paradigmas de vida e modelos políticos ocultos.

         Ao analisarmos primeiramente a cultura de nosso povo podemos afirmar, como já disse Habermas que a privacidade de nosso lar foi demolida”(2001:71). Notamos em nossos lares uma invasão, pelos meios de comunicação, de coisas alheias a nossa vida. Os desenhos que nossos filhos assistem são de outras partes do mundo, bem como as brincadeiras e seus personagens prediletos. Em nossos lares o diálogo tem desaparecido, sendo substituído por novelas e/ou vídeo games e computadores. A tecnologia que vem como um bem para a humanidade também isola e afasta. Nossos costumes e tradições tem sido soterrados.

       Na verdade, a globalização tem “ reduzido o mundo a uma homogeneidade cultural, segundo os moldes da cultura dominante” (Streck;2003:23). Logo, sabemos que a homogeneização passa  por cima das particularidades e peculiaridades culturais dos povos. Dessa forma, podemos analisar nossa cultura hoje, classificando-a como empobrecida e não dialógica. Notamos facilmente isto quando começamos a olhar no interior de nossos lares a qualidade de nosso convívio familiar e constatamos que nosso tempo em família não é, de forma alguma permeado por processos educativos quaisquer.

      A Educação também sofre um embate violento com o advento da globalização. Simplesmente fomos imersos ou submersos a uma era onde o conhecimento tornou-se um “capital” valiosíssimo e, logo, aqueles que possuem melhores condições de acesso a ele se beneficiam enquanto muitos permanecem às margens, ou mesmo à exclusão. Durkheim definiu a educação como :

A ação exercida pelas gerações mais antigas sobre os que ainda não estão prontos para a vida social. Seu objetivo é despertar e desenvolver na criança os estados físicos, intelectuais e morais exigidos dela pela sociedade, de modo geral, e pelo meio ao qual está especialmente destinada.”(1922:42)

Nesta definição Durkheim deixa clara  a importância da sociedade onde a criança está inserida. Em tempos globais, porém parecem ser generalizações que norteiam os rumos da educação, deixando, por vezes, de lado os aspectos histórico-culturais e sociais envolvidos. Nos parece claro e lógico aceitar a admitir, conforme fala Vygotsky, citado por Rego que:   

A escola desempenhará bem seu papel, na medida em que, partindo daquilo que a criança já sabe (o conhecimento do seu cotidiano, suas idéias a respeito dos objetos, fatos e fenômenos, suas “teorias” acerca do que observa no mundo), ela for capaz de ampliar e desafiar a construção de novos conhecimentos...”(Rego;2002:108)

         Podemos destacar como pontos importantes a serem observados: onde estão as bases que fundamentam a educação oferecida em nossas escolas? Não estariam elas servindo unicamente como um “meio vital de controle social”(Bottomore;1975:254) de uma cultura hegemônica enrustida sob o termo “globalização”. Chomsky faz o seguinte comentário sobre isto:

Longe de criarem pensadores independentes, ao longo da história, as escolas sempre desempenharam um papel no sistema de controle e coerção. E uma vez que você é bem educado, você já foi socializado em termos que sustentem a estrutura de poder, que, por sua vez, o/a recompensa imensamente”(Chomsky;2000:16)

        Outro raciocínio importante a ser realizado diz respeito ao nosso estilo de vida, nossa matriz de comportamento, modelo mental, paradigma ou outro sinônimo qualquer e a forma como este tem sido afetado. Todos nós formamos já desde a tenra idade um “modelo” que usaremos em nossa vida como uma bússola ou guia. Nesse modelo encontram-se nossos princípios, valores e crenças, enfim, são aqueles conceitos recebidos e aceitos como verdades que aparecem arraigados no interior de nossa consciência. Segundo Senge, tais modelos são “imagens internas profundamente arraigadas sobre o funcionamento do mundo, imagens que nos limitam a formas bem conhecidas de pensar e agir”(2002:201) Tais modelos podem ser trabalhados e nossa visão de mundo pode ser alterada. È preocupante o fato de que, muitas vezes, podemos nos encontrar preocupados e buscando algo que nunca antes fez parte de nosso modelo de vida e que não considerávamos importante. Isso se dá devido a grande proporção de imagens e mensagens que nos são transmitidas diariamente e que acabam, por fim, cristalizando-se em nossa mente como verdades. Ou seja, mais uma vez somos submissos e nos modificamos e adaptamos a esta “nova realidade” em que nos encontramos, embora não precisaríamos dela para nossa felicidade.

         Outro  aspecto intrigante e merecedor de maior destaque na nossa análise sobre a globalização é a imposição gradativa de um modelo político oculto que ascende com toda a força, o neoliberalismo. No nosso país o neoliberalismo foi instaurado com eficácia no governo FHC  “seguindo as três diretrizes do consenso de Washington: a redução do Estado; a liberalização dos mercados; a desregulamentação financeira”. (Chauí; 2001). Ora, é obvio que através destas diretrizes o país abre suas portas para o que tem sido chamado de recolonização do Terceiro Mundo.

         É curioso observar que um sistema como o neoliberal que diz possuir uma doutrina universal com base na liberação dos mercados

é desmentido pelo fato bem conhecido da existência de quotas, barreiras tarifárias (oficiais e extra-oficiais) que limitam os fluxos de mercadorias que ameaçam setores econômicos críticos na Europa e nos Estados Unidos”(Petras;2000:10).

       Encontramos hoje um mito moderno que diz existir uma crise no capitalismo mundial, porém o que notamos é que cada vez mais os Estados Unidos e a Europa Ocidental tem se expandido e pressionado o mundo a abrir suas economias e sistemas financeiros, bem como privatizar empresas públicas. Neste caso é melhor que tratamos o assunto como “crise nacional do Terceiro Mundo que resulta em prosperidade imperialista no Primeiro Mundo”(Petras; 2000:11)

         Podemos concluir que a globalização traz em si a tradução de uma forma de expansão e sustentação do sistema  imperialista americano que procura o domínio mundial. Cabe a nós, enquanto cidadãos críticos e educadores analisarmos as imagens que nos são oferecidas cotidianamente e identificar onde encontram-se pontos que legitimam essa busca pela homogeneização e dominação pretendida.Uma coisa é certa, em todas as partes do mundo sociedades tem sido excluídas deste modelo imposto e organizam-se à margem dos acontecimentos. Já não podemos mais concordar com um sistema excludente e desigual e nos cabe o engajamento na busca de uma condição de vida mais digna.

Referências Bibliográficas

BOTTOMORE, T.B. Introdução a Sociologia. 6. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.318 p.

CHAUÍ, M. A Educação como Direito.Porto Alegre: SMED, n.13, mar.,2001.

HARDT, M., NEGRI, A. Império.2. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001. 501p.

PETRAS, J., VELTMEYER, H. Hegemonia dos ESTADOS UNIDOS no novo milênio. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2000. 268p.

REGO, T. C. Vygotsky. 13. ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2002. 138p.

SCHULZ, A. Comércio Exterior para Brasileiros. Santa Catarina: Editora da Furb, 1999.158p.

SENGE, P. M. A Quinta Disciplina 11. ed. São Paulo: Editora Best Seller, 2002.443p.

STRECK, D. Educação para um novo contrato social. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2003.

TIBA, I. Quem ama educa.26. ed. São Paulo: Editora Gente, 2002. 302p.

TRIVIÑOS, A.N. S. Bases Teórico-Metodológicas da Pesquisa Qualitativa em Ciências Sociais. 2. ed. Porto Alegre: Faculdades Integradas Ritter dos Reis, 2001.151p.

Nossos agradecimentos ao autor por sua colaboração e esperamos mais!

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