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Houve Um Tempo
de Didática Difusa
Como adjetivo - didático, didática - o termo é conhecido desde a Grécia
antiga, com significação muito semelhante à atual, ou seja, indicando que
o objeto ou a ação qualificada dizia respeito a ensino: poesia didática,
por exemplo. No lar e na escola, procedimentos assim qualificados
-didáticos - tiveram lugar e são relatados na história da Educação. Como
objeto de reflexão de filósofos e pensadores, participam da história das
idéias pedagógicas.
A situação didática, pois, foi vivida e pensada antes de ser objeto de
sistematização e de constituir referencial do discurso ordenado de uma das
disciplinas do campo pedagógico, a Didática.
Na longa fase que se poderia chamar de didática difusa, ensinava-se
intuitivamente e/ou seguindo-se a prática vigente. De alguns professores
conhecemos os procedimentos, podendo-se dizer que havia uma didática
implícita em Sócrates quando perguntava aos discípulos: "pode-se ensinar a
virtude?" ou na lectio e na disputatio medievais. Mas o traçado de uma
linha imaginária em torno de eventos que caracterizam o ensino é fato do
início dos tempos modernos, e revela uma tentativa de distinguir um campo
de estudos autônomo.
Século XVII:
surgimento da Didática
A inauguração de um campo de estudos com esse nome tem uma característica
que vai ser reencontrada na vida histórica da Didática: surge de uma crise
e constitui um marco revolucionário e doutrinário no campo da Educação. Da
nova disciplina espera-se reformas da Humanidade, já que deveria orientar
educadores e destes, por sua vez, dependeria a formação das novas
gerações. Justifica-se, assim, as muitas esperanças nela depositadas,
acompanhadas, infelizmente, de outras tantas frustrações.
Constata-se que a delimitação da Didática constituiu a primeira tentativa
que se conhece de agrupar os conhecimentos pedagógicos, atribuindo-lhes
uma situação superior à da mera prática costumeira, do uso ou do mito. A
Didática surge graças á ação de dois educadores, RATÍQUIO e
COMÊNIO, ambos provenientes da Europa Central,
que atuaram em países nos quais se havia instalado a Reforma Protestante.
Essa etapa da gênese da Didática a faz servir, com ardor, á causa da
Reforma Protestante, e esse fato marca seu caráter revolucionário, de luta
contra o tipo de ensino da Igreja Católica Medieval. Doutrinariamente, seu
vínculo é com o preparo para a vida eterna e, em nome dela, com a natureza
como "nosso estado primitivo e fundamental ao qual devemos regressar como
princípio”( Comênio).
Conheçam Seus
Alunos - diz Rousseau
As instituições dos didatas parecem ter-se estiolado no decurso do tempo e
a História da Educação consigna apenas iniciativas esparsas até o final do
século XVIII. ROUSSEAU é o autor da segunda
grande revolução didática. Não é um sistematizador da Educação, mas sua
obra dá origem, de modo marcante, a um novo conceito de infância.
A prática das idéias de ROUSSEAU foi empreendida, entre
outros, por PESTALOZZI, que em seus escritos e
atuação dá dimensões sociais ã problemática educacional. O aspecto
metodológico da Didática encontra-se, sobretudo, em princípios, e não em
regras, transportando-se o foco de atenção às condições para o
desenvolvimento harmônico do aluno. A valorização da infância está
carregada de conseqüências para a pesquisa e a ação pedagógicas, mas estas
vão ainda aguardar mais de um século para concretizar-se.
Inflexão
Metodológica Herbartiana, no Século XIX
Na primeira metade do século XIX, João Frederico
HERBART (1776-1841) deseja ser o criador de uma Pedagogia Científica,
fortemente influenciada por seus conhecimentos de Filosofia e da
Psicologia da época. Situa-se no plano didático ao defender a idéia da
"Educação pela Instrução", bem como pela relevância do aspecto
metodológico em sua obra. 0 método dos passos formais" celebrizou o autor,
que o considerava próprio a toda e qualquer situação de ensino.
HERBART tem o mérito de tornar a Pedagogia o "ponto
central de um círculo de investigação próprio. Observe-se que os
fundamentos de suas propostas, e estas mesmas, vieram a merecer críticas
dos precursores da Escola Nova cujas idéias começam a propagar-se ao final
do século XIX.
Um Intervalo
na Trajetória Histórica: comentário sobre o duplo aspecto da Didática
Da original proposta didática do século XVII, duas linhas se destacam e
estarão daí em diante em conflito. De um lado fica a linha
metodológica, que, fundamentada no que se
conhecia sobre a natureza no século XVII ou sobre a Psicologia no começo
do sécu XIX, acentua o aspecto externo e objetivo do processo de ensinar,
embora o faça em nome do sujeito (criança, aluno, aprendiz) que se
pretende ensinar de modo eficiente. A linha oposta parte do sujeito, de
seus anseios e necessidades, acentuando o perene interno do educando.
A Didática do século XIX oscila entre esses dois modos
de interpretar a relação didática: ênfase no
sujeito - que seria induzido, talvez "seduzido" a aprender pelo
caminho com curiosidade e motivação - ou ênfase no
método, como caminho que conduz do
não-saber ao saber, caminho formal descoberto pela razão humana.
Quanto à relação entre Didática e Sociedade
ocorre o seguinte: no século XVII, a constituição dos estados nacionais e
a modernidade valorizam o ensino e desejam aumentar seu rendimento. O
método é interpretado como uma defesa dos interesses da criança, que é
peça importante de uma nova sociedade, a sociedade reformada dos
principados germânicos. Já o final do século XVIII é a época
revolucionária, em que o feudalismo e a monarquia absoluta receberam seu
golpe mortal.
No entanto, estamos já no caminho do que se
convencionou chamar o Estado representativo, seja na forma de monarquia
constitucional (Inglaterra e França pós-revolução) ou na de república, na
Europa e América dos séculos XIX e XX. O pressuposto é a igualdade entre
os homens e a Educação política do povo, só conseguida se houver uma
Educação liberal. Quanto aos Estados socialistas que se vão desenvolver a
partir do primeiro quarto do século XX, a sua própria necessidade de
reorganização política impunha um esforço de Educação, mas desconfiava dos
rumos escolanovistas, que se anunciam.
A Escola Nova
Não é coincidência que a era do liberalismo e do capitalismo, da
industrialização e urbanização tenha exigido novos rumos á Educação. Na
burguesia dominante e enriquecida, a Escola Nova vai encontrar
ressonância, com seus ideais de liberdade e atividade. É preciso
considerar, no entanto, que já se iniciam as novas doutrinas socialistas
que ao final do século vão ser progressivamente dominadas pelo marxismo.
Na prática, o século assiste ao despontar dos poderes públicos com relação
á escola popular, aos debates entre a escola laica e a confessional e ás
lutas entre orientações católicas e protestantes, em países atingidos pela
Reforma.
A lenta descoberta da natureza da criança que a
Psicologia do final do século XIX começa a desvendar sustenta uma atenção
maior, nos aspectos interno e subjetivo do processo didático. Numa relação
que só pode ser plenamente compreendida como de reciprocidade, uma nova
onda de pensamento e ação faz o pêndulo oscilar para o lado do sujeito da
Educação.
O movimento doutrinário, ideológico, caracteriza-se por sua denominação
mais comum: Escola Nova, também Renovada, Ativa ou Progressista, conforme
as vertentes de sua atuação. Contrapõe-se, pois, a concepções consideradas
antigas, tradicionais, voltadas para o passado.
Na Europa como nos Estados Unidos, pode-se arrolar
tendências diferentes: a psicopedagogia com CLAPARÈDE, FERRIÈRE, BOVET; a
medicina pedagógica com MONTESSORI e
DECROLY ou a sociopedagogia de
FREINET, DEWEY,
KERSCHENSTEINER e COUSINET. A base psicológica é predominantemente
funcionalista, mas afastando-se tanto do pragmatismo americano quanto das
influências do associacionismo; no entanto, os fundamentos sociológicos
divergem, indo da linha social-democrata à socialista.
No Final do
Século, a Didática Oscila Entre Diferentes Paradigmas
“Um paradigma
(ou um conjunto de paradigmas) é aquilo que os membros de uma comunidade
partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens
que partilham um paradigma.”
(Kuhn, A
Estrutura das
Revoluções
Científicas)
Qual o paradigma compartilhado, quanto á Didática? Como é que a comunidade
educacional interpreta esse paradigma?
Considero que a dificuldade de responder a essas questões encontra-se no
fato de que não há um paradigma, mas talvez paradigmas em conflito. E
atrevo-me a dizer que boa parte dessa situação se deve a uma espécie de
contaminação entre a Didática disciplina - e o conteúdo dos cursos.
Explicando melhor, o continente didático acolhe diferentes conteúdos, em
termos de tendências doutrinárias ou teóricas. Ou seja, algumas obras ou
cursos privilegiam determinadas inflexões-sociológicas, psicológicas,
filosóficas -, mas nem sempre as mesmas. Interpretam o Ensino de
muitos modos. Há diferenças entre posições teóricas e diretrizes
metodológicas ou tecnológicas. E condena-se o continente por seu conteúdo.
Tomar consciência que a Didática hoje oscila entre
diferentes paradigmas pode ser algo muito auspicioso para a comunidade
pedagógica. Na verdade ela nunca foi monolítica: é o que prova a própria
necessidade de adjetivação adotada tantas vezes: Didática renovada, ativa,
nova, tradicional, experimental, psicológica, sociológica, filosófica,
moderna, geral, especial etc.
Pois é certo que a Didática têm uma determinada
contribuição ao campo educacional, que nenhuma outra disciplina poderá
cumprir. E nem a teoria social ou a econômica, nem a cibernética ou a
tecnologia do ensino, nem a psicologia aplicada à Educação atingem o seu
núcleo central: o Ensino.
Esse núcleo, que tantas vezes ficou obscurecido
pelo conceito de Método, algo que
deveria ser entregue, "presenteado" ao professor, e outras pela relevância
do sujeito-aluno, unilateralmente e individualmente, sem que se pudesse
discernir a dialética
professor -
aluno ( no singular, como no plural) que deve nortear as
pesquisas sobre o processo.
É como decorrência desse conceito nuclear que se situam
as inquietações da Didática atual. É esse conceito que é objeto de
controvérsias teóricas, que às vezes levam a disputa ao campo
interdisciplinar do "currículo", como que exigindo da Didática que proceda
ã sua invasão, já que o conteúdo do ensino - o "o quê" se ensina - tanto
pode ser problema didático quanto curricular. Outras vezes leva a outro
campo inter-relacionado, o da Psicologia do Desenvolvimento ou
Aprendizagem, já que o êxito do processo de Ensino, aquilo mesmo
que justifica tentá-lo, é a Aprendizagem. E, conforme a Teoria,
surge todo o problema do desenvolvimento intelectual, afetivo, moral,
social, igualmente interdisciplinar.
Mais um problema de limites, e crucial, está nas
outras questões: por que ensinar? e para quê? E chegamos aos limites da
Filosofia da Educação, da Sociologia, da Política, pelo menos.
Dei esses exemplos para mostrar que o
inter-relacionamento da Didática com outras áreas do conhecimento é
intenso e constante, o que de modo algum prejudica sua autonomia, mas, ao
contrário, vem enriquecê-la. Há alguns anos, visualizei a situação
didática como um tronco de cone no qual uma secção menor (a) refletindo o
plano da relação humana, vivido na situação didática típica; uma secção
intermediária (b) destacando o aspecto técnico do ensino; e a mais ampla
(c), que chamei de região cultural, na qual se decidem objetivos e
conteúdos. Mas a situação repousa sobre bases que abrangem todos os
aspectos da sociedade.
Qual a Situação
Atual da Didática?
Chegou o momento de procurar responder às questões iniciais, que giram em
torno do objeto de estudos e da delimitação do campo da Didática, de sua
autonomia e relacionamento com outras áreas de conhecimento e reflexão.
Conseguindo-se apontar o núcleo dos estudos didáticos,
ou seja, o Ensino, como intenção de produzir aprendizagem e sem
delimitação da natureza do resultado possível (conhecimento físico,
social, artístico, atitudes morais ou intelectuais, por exemplo), e de
desenvolver a capacidade de aprender e compreender, é fácil entender que
suas fronteiras devem sei fluidas. E que essa fluidez é qualidade e não
defeito, pois permite sua aproximação com conhecimentos psicológicos,
sociológicos, políticos, antropológicos, filosóficos ou outros.
Mas, afinal, será mesmo a Didática apenas uma
orientação para a prática, uma espécie de receituário do bom ensino? Esse
é um dos mais discutidos problemas da disciplina. Se assim fosse não
valeria a atenção de tantos, embora possa até chegar lá, como qualquer
disciplina que comporta aplicações práticas. Mas a teorização em Didática
é quase uma fatalidade: em todas as discussões há, explícita ou
implicitamente, uma tomada de posição teórica. Disse um eminente pensador,
há muitos anos, que o pedagogo quase nunca foi o filósofo de sua pedagogia
... Assim é a Didática, que, como vimos, se aproxima de outras teorias, em
sua necessidade de explicar as relações entre os eventos que estuda, pois
a função da teoria é a explicação.
A Didática deve conviver com essa dupla feição, teórica
e prática. Como a Medicina. E uma prática muito especial, pela
responsabilidade social que a envolve, já que tem uma grande impregnação
social. Mas são diferentes a elaboração de um rol de prescrições e o
traçado de conjecturas, de proposições com diferentes graus de
probabilidade, de hipóteses conduzidas pela teoria. Pois os caminhos
didáticos, ao contrário do que julgam alguns tecnodidatas, são amplos e
diferenciados e não estritos e exclusivos.
Considerações
Finais
O panorama do final do século XX não é simples. A Didática está impregnada
de todas as inquietações da época e, entre as muitas frentes de pesquisa e
exploração, ora requer auxílio da psicologia profunda de origem freudiana,
ora recorre às correntes neomarxistas. A oscilação entre uma tendência
psicológica que acentua a relevância da compreensão da inteligência humana
e sua construção e outra que se apóia na visão sociológica das relações
escola-sociedade, parece dominar o conteúdo da disciplina. Esta, em
conseqüência, vai-se familiarizar com teorias de origem epistemológica e
social, sem perder, no entanto, seu compromisso com a prática do ensino.
Nos programas de Didática, essa fermentação ideológica
nem sempre consegue um resultado harmônico: os novos temas ainda não
tiveram função aglutinadora e vêem-se programações enviesadas com
exclusividade, de um lado ou de outro. Não se entenda, entretanto, que
defendo a possibilidade de uma "Didática Marxista" ou "Didática
Sociológica" ou "Didática Cognitivista(11) ou qualquer outra adjetivação
que indique um ponto de vista exclusivo sobre seu campo de estudos.
Pois ocorre que, por constituir-se a Didática numa
disciplina que pode ser desmembrada em vários planos (exemplifiquei com os
planos humano, técnico e cultural), vê-se que, em cada um deles,
contribuições de áreas diferentes se tornam úteis e mesmo necessárias.
Sua dupla dimensão (vertical e horizontal) e o ciclo
didático sempre recomeçado, por outro lado, vinculam-na diretamente á
prática e esta, em sua complexidade, exige recursos e técnicas, cuja
eficiência é objeto de pesquisa e experimentação. Mas não existem duas
Didáticas, uma teórica e outra prática: são duas faces da mesma moeda, e,
como elas, interdependentes.
Um esclarecimento final, sobre o conceito foco da
Didática: o Ensino. Revela
uma intenção: a de produzir aprendizagem; é palavra-ação, palavra-ordem,
palavra-prospectiva, palavra que revela um resultado desejado. Mas, depois
de PIAGET, não se pode mais entender o ensino
como a simples apropriação de um conteúdo: uma
informação, um conhecimento ou uma atitude, por exemplo. O ato
assimilador, essência da aprendizagem legítima, correspondente ao ensino
que merece esse nome, terá como subproduto (sub ou super?) alguma
mobilização da inteligência redundando em progresso cognitivo, em
capacidade ampliada para conhecer ( ou aprender).
É desse fenômeno que trata a Didática: do ensino
que implica desenvolvimento, melhoria. E mais: não se limita o bom ensino
ao avanço cognitivo intelectual, mas envolverá igualmente progressos na
afetividade, moralidade ou sociabilidade, por condições que são do
desenvolvimento humano integral.
Quero, ainda, deixar claro que, do meu ponto de vista,
a Didática, como disciplina e campo de estudos, parece acelerar o
progresso no sentido de uma autoconsciência de sua identidade - encontrada
em seu núcleo central - e de sua necessária interdisciplinaridade.
Conseguir plenamente a autonomia, sem prejudicar suas fecundas relações
com disciplinas afins, é um projeto que, a meu ver, depende tanto de um
esforço teórico e reflexivo, quanto de um avanço no campo experimental.
Creio que é
tarefa para o século XXI.
Amélia Domingues de Castro
Publicação: Série Idéias n. 11. São Paulo: FDE,
1991 Páginas: 15-25 |