Formação em Valores no âmbito da EI e EFI:...

caminho para a disciplina

 

A educação é um processo interno pelo qual a criança atinge progressivamente seu desenvolvimento integral em todas as dimensões do ser humano.

Nas palavras de Friedrich Froebel: “A educação não é senão a vida ou o meio que conduz o homem, ser inteligente, racional e consciente, a exercitar, desenvolver e manifestar os elementos da vida que possui por si próprio”.

A educação potencializa as possibilidades que a natureza, a genética e o ambiente oferecem à criança, estimulando o que ela tem de melhor daquilo que traz em si mesma, enriquecendo seu potencial.

É evidente, então, que através da educação, devemos ajudar as crianças a crescerem como pessoas livres, responsáveis, com capacidade crítica, auxiliando-as a formar seu caráter e a aprender a conduzirem-se como cidadãos, através da interiorização dos valores morais e sociais que devem nortear a convivência pacífica do ser humano em sociedade.

Em síntese: é através de uma educação que invista na formação de valores desde tenra idade que poderemos formar novas gerações que conheçam e compreendam o mundo, comprometendo-se a melhorá-lo dia a dia.

Em primeiro lugar não nos esqueçamos de que ninguém é uma ilha.
Professores, alunos, pais, escolas, atuam em uma rede, na qual o que existe verdadeiramente é a inter relação contínua entre todos os atores e todas as instituições com a sociedade global, tecendo fios que se entrelaçam nas interações, mutuamente sendo afetados e afetando, em maior ou menor grau, uns aos outros.

O Contexto em que vivemos:

Se educamos nossas crianças para a vida em sociedade, devemos refletir sobre o tipo de sociedade em que elas vão desenvolver-se: suas regras, normas, pautas e valores, além das pequenas sutilezas implícitas nos aspectos relacionais.

Em nossa sociedade atual há uma tendência bastante difundida ao consumo exagerado, à competitividade desmesurada, ao stress que inclusive tem afetado a população infantil. Os problemas de instabilidade emocional são numerosos, a ansiedade e a depressão vêm crescendo cada dia mais.

A quantidade e a qualidade do tempo que os pais e mães dedicam a seus filhos e filhas também têm decrescido na mesma proporção em que aumenta a quantidade de bens materiais que lhes oferecem, sendo este um dos problemas que os estudiosos analisam quando argumentam que a instituição familiar está em crise.

Inúmeras pesquisas já apontaram que a carência de disciplina durante os primeiros anos é um dos fatores mais importantes que conduzem à delinqüência juvenil, à incidência de acidentes e outros problemas sociais.

Muitas famílias têm cedido o exercício da autoridade às autoridades, assim como cederam a educação à escola, esquecendo-se que antes de qualquer outra influência está a do entorno familiar. Esse esquecimento também coloca em segundo plano um aspecto fundamental: na família, as aprendizagens (entre elas a disciplina) estão carregadas de afetividade e que esta é a única maneira de integrar e estruturar um ser humano_ o afeto consistente e sistemático _ o qual deveria ser provido pelos pais.

No sentido de socialização, de formação e educação, por razões mais complexas que as aqui resumidas, a família atual não está cumprindo com sua função.

E a escola?

Tampouco a escola, pois o currículo escolar se move entre dois pólos: abarrotar as crianças de conhecimentos ou deixá-las à mercê de suas próprias intuições, já que ainda persiste tanto o conteudismo quanto o mito de que a criança aprende quando quer e o que quer. Em nenhum desses pólos se dá a devida atenção aos problemas afetivos da formação em valores, ainda que estes problemas causem mais transtornos de aprendizagem do que se imagina.

Mas, como a família delega essa formação à escola, em que pese a estreita colaboração que deviam manter, acontece que esse aspecto fundamental para o crescimento pessoal fica no terreno de ninguém.

O que queremos dizer com isso?

Com esse terreno de ninguém? As crianças ficam à mercê de uma educação social difusa, onde os meios de comunicação ou outras instâncias acabam propondo modelos de fato, que pouco ou nada induzem à prática de valores pessoais, sociais e ambientais.

E, nesse momento, vem a pergunta inevitável: que formação em valores propicia a escola? Qual o espaço que encontramos para uma formação nos valores básicos que encaminhem para uma convivência harmônica baseada no direito de todos?

Temos que refletir e nos questionarmos quanto ao sentido da escola ensinar somente conteúdos que, muitas vezes, as crianças não compreendem ou não relacionam diretamente com a vida.

O caráter estritamente acadêmico das prioridades escolares nos choca, pois, no conjunto de todos esses processos, a indisciplina e, muitas vezes, a violência que surge em nossas escolas, estão reproduzindo o sistema de normas e valores da comunidade em que estão inseridos e da sociedade em geral.

Os alunos, portanto, estão sendo socializados em “anti - valores” tais como a injustiça, o desamor, a falta de solidariedade, o individualismo excessivo, o consumismo, entre tantos outros.

Trabalhar com valores representa a formação das habilidades, conhecimentos e atitudes necessárias para construir convivência, respeito, autoconhecimento, disciplina. Se estas habilidades, atitudes e conhecimentos forem desenvolvidos desde a infância, as crianças poderão ir construindo os princípios que fundamentam os direitos humanos e os terão como horizonte para a sua ação e reflexão.

Formação em Valores e Disciplina

Até agora se tem preferido falar em valores e não em realizá-los, especular sobre a convivência e não experimentá-la.

A formação em valores na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental, como toda formação psicológica, ao contrário do que se pensa não é ensinada diretamente. Não se pode ensinar a ser honesto, justo ou a respeitar o outro, com sermões, histórias ou lições de moral.

A criança irá construir sua moralidade (sentimentos, crenças, juízos e valores) a partir de sua interação com as inúmeras e cotidianas experiências que tem com as pessoas e com as situações. Se queremos que construa tais valores, ela necessita interagir com situações em que a honestidade, justiça, a tolerância ou o respeito estejam presentes de fato.

O jogo constitui a atividade principal do desenvolvimento na idade pré- escolar, pois, através dele, as crianças aprendem as relações mais importantes da realidade.

A formação de valores nesta faixa etária deverá ser organizada de maneira lúdica, se bem que a conscientização e verbalização como fase final do processo de formação há de significar o momento metodológico que culmine com um determinado nível de aquisição. Isto significa que a formação de hábitos e realizações de atividades dirigidas a formar valores devem desenvolver sentimentos e vivências e não somente reforços externos para orientar a conduta.

Tanto a Educação Infantil quanto os anos iniciais do Ensino Fundamental são períodos privilegiados para aprendizagem e, se bem criadas e aproveitadas vivências, situações cotidianas, experiências, diálogos, sem esquecer a afetividade e a formação de auto- conceito positivo, já seriam um grande passo para potencializar a diminuição das situações de indisciplina e violência em anos posteriores.

Na visão piagetiana e de autores que nele têm-se inspirado, a educação moral ou educação em valores não poderia jamais se dar na forma de imposição de valores, por melhores que estes fossem, nem deixada à livre escolha de cada um. Piaget (1996) argumenta que na moral os meios usados no ensino são tão fundamentais quanto os fins.

Se quisermos educar para a autonomia (a adoção consciente e consentida de valores) não é possível obtê-la por coação; ou seja, se quisermos formar alunos como pessoas capazes de refletir sobre os valores existentes, capazes de fazer opções por valores que tornem a vida social mais justa e feliz para a maioria das pessoas, capazes de serem críticos em relação aos contra-valores, então é preciso que a escola crie situações em que essas escolhas, reflexões e críticas sejam solicitadas e possíveis de serem realizadas.

Valores e atitudes, afetos e emoções não podem senão ver-se em atos para serem verificados.

O isolamento em que muitas pessoas declaram viver hoje, desconectadas do sucede ao redor, compartilhando espaços físicos, mas em meio a uma sociedade que pode oferecer grandes oportunidades para fazer parte da grande teia, da grande rede, não é diferente do que declaram certos professores a respeito de suas relações dentro das escolas: cada um em sua sala, com portas fechadas e desvinculados do que sucede ao lado, com um discurso implícito de “esse não é meu problema”.

Acreditamos que a educação de hoje necessita urgente de mudanças, em especial nas atitudes dos pais, dos educadores e da própria sociedade como um todo, cada um procurando agir com mais "firmeza e com um coração enorme", agindo para que as novas gerações sejam formadas para melhor.

Mudanças que tenham como enfoque principal não só "transmitir conhecimentos" às crianças e aos jovens, mas socializá-los e humanizá-los adequadamente, objetivando sempre o ideal de uma sociedade formada por pessoas mais responsáveis e equilibradas, com comportamentos saudáveis, de um agir com cidadania, sabendo viver com os outros de modo mais harmônico.

O processo de mudança mais recomendado não é simplesmente o melhor e sim o melhor possível!

Se a escola não se comprometer formalmente com a tarefa de formar em valores, ainda que busque ensinar todos os ramos da ciência, se não cultivar o mundo afetivo tendo como fundamentação os valores, o ensino, parte da educação, já está comprometido em suas bases.

Nem mesmo estará respondendo ao conceito de “educação” a menos que se ocupe da moral e da ética na mesma medica em que se ocupa de ensinar matemática ou história?

O problema é que a ação educativa não resulta eficaz em seu propósito sem levar em conta que a criança funciona como aquilo que é: um todo global, em processo de chegar a ser capaz de conduzir seu próprio projeto vital no contexto social.

O fato, como já o dissemos, é que o sistema educativo vem se ocupando com preferência de certas áreas, nas quais centra o currículo.

Enquanto que para trabalhar temas básicos para a formação humana, como são os valores, propõe uma transversalidade, que segundo a manifestação dos professores, poucos sabem em que consiste.

Corresponderia à educação formal articulá-los no currículo desde o nível da Educação Infantil, de forma planejada, sistemática, valorizada, com vistas a promover a competência social dos cidadãos, baseada em respeito, regras e limites.

 

Profªs. Ms. Joana Maria R. Di Santo e Vera Lúcia Camara Zacharias

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atualizado/setembro/2007