Observe estas duas palavras:
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Fmneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito
Fpneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico |
Agora, responda, se puder, as perguntas
abaixo para avaliar sua consciência fonológica :
1)
qual
das duas palavras acima você pronuncia mais rapidamente?
2)
qual
delas você daria alguma noção ou aproximação de significado?
Se disser que encontrou dificuldade de
pronunciar as duas palavras , você tem, realmente, razão. Ambas, é
verdade, possuem 46 letras. Se encontrou dificuldade de encontrar algum
grau de significação no item a, também tem razão: a palavra
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito não é palavra, não
tem significado nenhum na língua portuguesa.
Em todo caso, como podemos analisar são
duas palavras esdrúxulas, esquisitas, extravagantes, mas apenas uma
delas, isto, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
, opção b, realmente, é palavra e está registrada no novo
dicionário houaiss da língua portuguesa, tendo por definição
“estado de quem é acometido de uma doença rara provocada pela aspiração
de cinzas vulcânicas “.
A outra palavra, isto é,
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito, a rigor, do ponto
lingüístico, é uma palavra ad doc (nonce word), não
significa nada, foi inventada por mim, no processo de elaboração deste
texto, de tal modo que é uma palavra fictícia, ou tem forma ou
aparência de palavra, que se assemelha, em configuração grafêmica ou
fonêmica, a palavras da língua portuguesa.
Para a lingüística tradicional, palavra é
um elemento lingüístico significativo, composto de um ou mais fonemas.
No caso da palavra Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
ainda que chegue a Ter 46 letras. ela é uma unidade lingüística cujo
significado está na cultura vigente, na compreensão oral, na fala e na
escrita.
Pois bem. Para nós, investigadores dos
processos de lectoescrita, psicopedagogos, fonoaudiólogos,
neurologistas, psicolingüistas ou psicólogos cognitivos, pais,
professores, enfim, podemos, a partir do caso acima, ilustrar como
podemos descobrir indício de uma dificuldade de leitura ou dislexia.
Não obstante, você pode indagar: qual das
palavras acima citadas, poderia ser a “ isca”, importante indício, no
diagnóstico e processo de avaliação leitora?” Por incrível que pareça,
para um diagnóstico preliminar ou básico, em sala de sala, feito por um
educador, sem que o aluno precise ir a uma clínica psicopedagógica ou
fonoaudiológica, a palavra que, surpreendentemente, nos é útil, e,
portanto, serve-nos como parâmetro para diagnóstico, é
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito, a falsa palavra.
Uma criança ou um adulto pode ser
considerado uma leitor hábil, competente na decodificação e compreensão
leitoras, no processo de aquisição da linguagem, quando é capaz não
apenas de ler palavras não-familiares como em
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, que já é
registrada no dicionário brasileiro, mas é capaz de ler, também,
palavras fictícias, criadas pelos examinadores, professores, pais ou
reeducadores lingüistas clínicos, terapeutas da linguagem,
fonoaudiólogos, quando submetido a um processo avaliativo de sua
competência leitora.
Para Andrew W. Ellis, em seu livro
Leitura, escrita e dislexia: uma analise cognitiva, a
familiaridade é um fator que determina, influencia e afeta a facilidade
ou dificuldade do reconhecimento de palavras na leitura hábil, isto é,
a leitura em voz alta. (Artes Médicas, p.20)
2.
O valor da consciência fonológica
A palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico é esdrúxula,
esquisita, excêntrica ou, numa expressão, é uma palavra não-familiar.
Sem embargo, é uma palavra. Uma pessoa que tem consciência fonológica,
ou seja, capaz de reconhecer as letras e discriminar os fonemas, será
capaz de gerar o que chamo de lectogenia (o neologismo é
meu), uma decodificação, manifesta na pronúncia corrente ou escorreita
da palavra, seguida da compreensão, ou seja, da assimilação do
significado que o signo encerra na sua forma lingüística.
Uma das tarefas dos
psicopedagogos, fonoaudiólogos, psicólogos, ou psicolingüistas, na
avaliação da compreensão leitora, é comparar o reconhecimento de
palavras familiares com o reconhecimento de palavras não-familiares.
Para uma criança, na
educação infantil ou alfabetização ou ainda no primeiro ciclo do ensino
fundamental, situando-se na etapa que os investigadores chamam de
leitura inicial,
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
é uma palavra não-familiar, esquisita, um palavrão; mas para um adulto,
ou leitor competente, curioso, pode ser uma palavra familiar, isto é,
uma palavra em que o bom leitor é capaz de decompor em seus morfemas
(radicais, sufixos, por exemplo) e fonemas (vogais, consoantes ).
Quando o
leitor principiante aprende que
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
traz, na sua estrutura lingüística, formas que estão presentes no mundo
vocabular, o seu ou o revelado pela cultura do meio em que vive,
encontrará níveis de contigüidade semântica da palavra não-familiar com
outras palavras familiares como no caso pneumonia, ultramar ,
microscópio, vulcão, cone, ouvido, sulfúrico, de modo a
fazer, também, a identificação rápida e fácil da forma, da pronúncia e
do significado apropriado, viável, de uma palavra encontrada no texto
escrito ou ouvido na mídia.
A
aprendizagem da palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
ou de qualquer outra palavra esdrúxula ou não-familiar ou mesmo uma
não-palavra requer da criança, durante o processo de leitura, pelo
menos, três “representações internas” :
a) aparência, b) significado e c) som, presentes na estrutura da palavra e a ligação dessas
representações umas às outras. A aparência lingüística leva o leitor
hábil ao reconhecimento da palavra. O significado e o som de uma
palavra, por seu turno, são revelados pela consciência fonológica,
alcançada no processo de aquisição da habilidade lectoescritora na
escola.
3. O reconhecimento das palavras
Por fim, uma pergunta pode agora advir:
quando a palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
tornar-se-á familiar para a comunidade brasileira ou lusófona?
Responderei assim: uma palavra torna-se familiar para os educandos e
para os já escolarizados, quando ela , a palavra, realmente, é
percebida, isto é, a comunidade lingüística é capaz de fazer a
identificação visual ou auditiva da palavra e pode lhe atribuir algum
grau de significado.
Para as crianças que vêem e lêem palavras
ou não-palavras, no mundo da leitura, fora ou dentro da escola, tendem,
quase sempre, a ter facilidade de identificar as formas
lingüísticas que são verdadeiramente palavras, isto é, signos
lingüísticos, dotados de significado (conceito, idéia) e significante
(estrutura fônica).
Quando estão diante de palavras fictícias
ou pseudopalavras, não apenas encontram dificuldade de pronunciá-las mas
de reconhecer sua estrutura lingüística, uma vez que as não-palavras são
dotadas apenas de significantes da língua, mas que nada
representam no mundo da leitura ou na fala das pessoas.
Por excelência, os fonemas são os
significantes mais discretos de uma língua, as menores unidades
sonoras distintivas da palavra, todavia, isoladas, são unidades
abstratas, nada significam. Os morfemas, ao contrário, unidades
significativas, como os radicais e sufixos que formam a palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, são elementos que
ajudam na compreensão da mesma, ainda que a palavra tenha um processo de
formação derivacional tão complexo ou ainda que tenha, na sua aparência
ou representação grafêmica, 46 letras, sendo, definitivamente, a maior
da língua portuguesa.
Pode-se, então, nessas alturas, fazer as
seguintes indagações:
a)
se
uma criança ou adulto, após exercício de soletração, pode pronunciar, em
voz alta, a palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
por que não encontraria a mesma “ facilidade” na falsa palavra
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito?
b)
Como
poderíamos justificar tal comportamento lingüístico?
c)
A
palavra escrita pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico é
uma combinação não familiar de letras?
d)
A
pseudopalavra “mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito" é
uma combinação não familiar de fonemas e, por isso mesmo, mais difícil
de pronunciar?
São muitas as perguntas, longas e
complexas, mas todas têm uma resposta curta e simples. É a velocidade
de leitura de pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
palavra que tem a mesmas letras e praticamente os mesmos fonemas da
falsa palavra , que indica sua familiaridade na pronúncia corrente a
partir de sua forma escrita. Depois de alguns minutos alguém pode, com
certa dose de brincadeira ou ludicidade, guardar, em sua memória de
longo prazo, a palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
como uma nova e esdrúxula palavra no seu universo semântico ou
vocabulário individual. Não encontraremos a mesma destreza lingüística
para as palavras falsas.
4.
Uma luz importante
Em substância, diria o seguinte: quem
adquire consciência fonológica no decorrer da aquisição de
linguagem pode não apenas ler palavras esdrúxulas, familiares ou
“não-palavras, como
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito, que nada diz,
que nada revela, nem na sua forma nem sua configuração lingüística. O
leitor hábil decodifica e compreende palavras que têm significado e
desconfia de palavras que, mesmo podendo ser decodificadas, não têm
significado nenhum no seu mundo cultural.
Uma criança com dislexia fonológica, com
deficiência na sua consciência fonológica, por exemplo, pode lentamente
pronunciar pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, e no
decorrer do tempo, ganhar destreza na decodificação, mas sua pronúncia
será sofrível quando tentar pronunciar
mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito. Surpreendente e
inesperadamente não fará, à guisa dos leitores hábeis, o reconhecimento
instantâneo da falsa palavra. Falta aos disléxicos fonológicos um
background de conhecimentos fonológicos da língua materna além
de habilidades lingüísticas orais presentes na habilidade leitora.
A aprendizagem da leitura, tendo, por
base, o método fônico, levará à aprendizagem da pronúncia de palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico ou
anticonstitucionalissimamente, de modo que deixa de ser estranha
e sem sentido quando realmente lida(decodificada e compreendida) e
torna-se algo que parece familiar, dela se extraindo um significado e
levando o emissor ou receptor a uma emissão viável ou a recepção
produtiva.
Esta reflexão metalingüística, a partir da
maior palavra da língua brasileira, é uma verdadeira epifania
para os que atuam na Psicopedagogia e Psicolingüística e um achado
excêntrico, mas luz importante, para os estudiosos dos processos
de aquisição de leitura e escrita da comunidade lusófona.
5-
Bibliografia básica consultada
1.
ALLIENDE, Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. (1987). Leitura: teoria,
avaliação e desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida
Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas.
2.
DUBOIS, Jean et ali. (1993). Dicionário de lingüística. Direção e
coordenação geral da tradução de Izidoro Blinstein. SP: Cultrix.
3.
ELLIS, Andrew W. (1995).Leitura, escrita e dislexia: uma analise
cognitiva. 2ª edição. Tradução de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes
Médicas.
4.
HARRIS, Theodore L, HODGES, Richard. (1999). Dicionário de
alfabetização: vocabulário de leitura e escrita. Tradução de
Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: Artes Médicas
5.
MONTEIRO, José Lemos. (2002). Morfologia portuguesa. Campinas:
Pontes.
6.
RODRIGUES, Norberto. (1999). Neurolingüística dos distúrbios da fala..
São Paulo: Cortez: EDUC (Fala viva; v.1)
7.
YAVAS, Mehmet, HERNANDOREMA, Carmen L. Matzenauer. LAMPRECHT, Regina
Ritter. (1991). Avaliação fonológica da criação: reeducação e terapia.
Porto Alegre: Artes Médicas.