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Se fosse
necessário definir o caráter específico da teoria de Vygotsky mediante uma
série de palavras chaves, seria preciso que fossem mencionadas ao menos as
seguintes: sociabilidade do homem, interação social, signo e instrumento,
cultura, história e funções mentais superiores. E, se fosse necessário
organizar essas palavras em uma única expressão, poderíamos dizer que a
teoria de Vygotsky é uma "teoria sócio-histórico-cultural do
desenvolvimento das funções mentais superiores", ainda que ela seja mais
conhecida com o nome de "teoria histórico-cultural".
Para
Vygotsky o ser humano se caracteriza por uma sociabilidade primária. Henri
Wallon expressa a mesma idéia de modo mais categórico: "Ele (o indivíduo)
é geneticamente social". (Wallon, 1959)
Na época de Vygotsky este princípio não passava de um postulado, uma
hipótese puramente teórica. Porém, atualmente, pode-se afirmar que a tese
de uma sociabilidade primária, e, em parte, geneticamente determinada,
possui quase um estatuto de fato científico estabelecido como resultado da
convergência de duas correntes de investigação: por um lado, as
investigações biológicas, como as relativas ao papel que desempenha a
sociabilidade na antroprogênese; por outro lado, as recentes investigações
empíricas sobre o desenvolvimento social da primeira infância que
demonstram amplamente a tese de uma sociabilidade primária e precoce.
A sociabilidade da criança é o ponto de partida das interações
sociais com o meio que o rodeia. Os problemas de interesse da psicologia
da interação social são atualmente bastante conhecidos e, por esse motivo,
nos limitaremos aqui a mencionar brevemente algumas particularidades da
concepção de Vygotsky. Por origem e por natureza o ser humano não pode
existir nem experimentar o desenvolvimento próprio de sua espécie como uma
ilha isolada, tem necessariamente seu prolongamento nos demais; de modo
isolado não é um ser completo.
Para o desenvolvimento da criança
principalmente na primeira infância, o que se reveste de
importância primordial são as interações assimétricas, isto é,
as interações com os adultos portadores
de todas as mensagens da cultura. Nesse tipo de interação o papel
essencial corresponde aos signos, aos diferentes sistemas semióticos, que,
do ponto de vista genético, tem primeiro uma função de comunicação e logo
uma função individual: começam a ser utilizados como instrumentos de
organização e de controle do comportamento individual.
Este é precisamente o elemento fundamental
da concepção que Vygotsky tem da interação social: no processo de
desenvolvimento desempenha um papel formador e construtor.
Isso significa simplesmente que algumas das categorias de funções
mentais superiores (atenção voluntária, memória lógica, pensamento verbal
e conceitual, emoções complexas, etc.) não poderiam surgir e constituir-se
no processo do desenvolvimento sem a contribuição construtora das
interações sociais.
Conclusões importantes para a educação
Em primeiro lugar, nos encontramos ante uma solução original do problema
da relação entre desenvolvimento e aprendizagem: inclusive quanto se trata
de uma função em grande parte determinada pela herança (como ocorre com a
linguagem), a contribuição do meio social (isto é da aprendizagem)
prossegue tendo um caráter construtor e, portanto, não se reduz unicamente
ao papel de ativador, como no caso do instinto, nem tão pouco a de
estímulo ao desenvolvimento que se limita a acelerar ou retardar as formas
de comportamento que aparecem sem ele.
A contribuição da aprendizagem consiste no fato de colocar à
disposição do indivíduo um poderoso instrumento: a língua. No processo de
aquisição este instrumento se converte em uma parte integrante das
estruturas psíquicas do indivíduo (a evolução da linguagem). Porém, existe
algo mais: as novas aquisições (a linguagem), de origem social, operam em
interação com outras funções mentais, por exemplo, o pensamento. Deste
encontro nascem funções novas, como o pensamento verbal.
Neste ponto nos encontramos com uma tese de Vygotsky que ainda não
tem sido suficientemente assimilada e utilizada nas pesquisas, nem sequer
na psicologia atual. O fundamental no
desenvolvimento não constitui no progresso de cada função considerada em
separado, mas sim, na mudança das relações entre as diferentes funções,
tais como a memória lógica, o pensamento verbal, etc..., isto quer dizer,
o desenvolvimento consiste na formação de funções compostas, de sistemas
de funções, de funções sistemáticas e de sistemas funcionais.
A análise de Vygotsky sob as relações entre desenvolvimento e
aprendizagem no que respeita à aquisição da linguagem nos leva a definir
o primeiro modelo de desenvolvimento
nestes termos: em um processo natural de desenvolvimento, a
aprendizagem se apresenta como um meio que fortalece esse processo
natural, coloca à sua disposição os instrumentos criados pela cultura que
ampliam as possibilidades naturais do indivíduo e reestruturam suas
funções mentais.
O papel dos adultos, enquanto representantes da cultura no processo
de aquisição da linguagem pela criança e de apropriação de uma parte a
cultura ( a língua), nos leva a descrever um novo tipo de interação
que desempenha um papel determinante na teoria de Vygotsky. Com efeito,
além da interação social, há nesta teoria uma interação com os produtos da
cultura. Esses tipos de interação manifestam-se em forma de interação
sóciocultural.
No conjunto das aquisições da cultura, ele centra sua análise
naquelas que têm por objeto controlar os processos mentais e
comportamentos do homem. Se trata dos diferentes instrumentos e técnicas
(inclusive tecnologias) que o homem assimila e orienta face a si mesmo
para influir em suas próprias funções mentais. Deste modo é criado um
sistema gigantesco de " estímulos artificiais e exteriores" mediante os
quais o homem domina seus próprios estados interiores. A cultura cria um
número cada vez maior de poderosos auxiliares externos (instrumentos,
aparatos, tecnologias) que apóiam os processos psicológicos.
Além dos auxiliares externos, existem os instrumentos psicológicos
contidos nas obras culturais que podemos interiorizar. Tratam-se dos
sistemas semióticos, procedimentos e técnicas conceituais dos meios de
comunicação, operações e estruturas de caráter intelectual que se dão em
todas as aquisições da cultura.
Esse enfoque pode ser explicado mediante o exemplo de um
instrumento tal como a língua escrita. A língua escrita e a cultura
livresca mudam profundamente os modos de funcionamento da percepção, da
memória e do pensamento. Ao apropriar-se da língua escrita o indivíduo se
apropria das técnicas oferecidas por sua cultura, e que, a partir deste
momento, se tornam "técnicas interiores" ( Vygotsky utiliza aqui a
expressão de Claparède).
Desta maneira, um instrumento cultural se instalada no
indivíduo e se converte em um instrumento individual privado.
No miolo destas investigações se encontra a aquisição dos sistemas
de conceitos científicos, a mais importante durante o período escolar.
Segundo a concepção de Vygotsky o sistema de conceitos científicos
constitui um instrumento cultural portador, por sua vez, de mensagens
profundas e, ao assimilá-lo, a criança modifica profundamente seu modo de
pensar.
O processo de aquisição dos sistemas de conceitos científicos é
possível através da educação sistemática de tipo escolar. A contribuição
da educação organizada e sistemática é, neste ponto, fundamental em
comparação com a aquisição da linguagem oral, em que a aprendizagem
desempenha um papel construtor mas que somente requer a presença de
adultos que possuam a língua na qualidade de participantes das atividades
comuns.
Fala-se neste caso de um segundo modelo
de desenvolvimento. Vygotsky o denomina "desenvolvimento
artificial": "Se pode definir a educação como o desenvolvimento artificial
da criança [...] A educação não se limita somente ao fato de exercer uma
influência nos processos de desenvolvimento, já que reestrutura de modo
fundamental todas as funções do comportamento". (Vygotsky, 1982-1984,
vol.I, p. 107).
O essencial é que a educação se converte em desenvolvimento,
enquanto no primeiro modelo não era mais que o meio de fortalecer o
processo natural; aqui, a educação constitui uma fonte relativamente
independente do desenvolvimento.
A análise deste segundo modelo de
desenvolvimento, denominado "desenvolvimento artificial",
cujo exemplo característico é o processo de aquisição de sistemas de
conceitos, levou Vygotsky a descobrir a dimensão metacognitiva do
desenvolvimento. Com efeito, a aquisição de conhecimentos baseados em tal
grau de generalização, a interdependência dos conceitos dentro de uma rede
de conceitos que permite passar facilmente de um a outro, as operações
intelectuais que podem ser executadas com facilidade e a existência de
modelos exteriores da aplicação destas operações facilitam a tomada de
consciência e o controle do indivíduo no que alude a seus próprios
processos cognocitivos.
Assim, ainda na atualidade, a teoria de Vygotsky é a única a
oferecer, ao menos em princípio, a possibilidade de conceituar
cientificamente os processos metacognitivos, que permite vincular esta
dimensão do desenvolvimento cognoscitivo em geral e explicar a origem
desta capacidade do indivíduo para controlar seus próprios processos
interiores.
Possíveis aplicações da teoria de Vygotsky sobre o
desenvolvimento mental para a pesquisa e a prática pedagógica
Em primeiro lugar esta teoria poderia, pois, ser utilizada com eficácia
para melhor compreender os fenômenos educativos, e sobretudo o papel
desempenhado pelo pelo desenvolvimento para elaborar pesquisas pedagógicas
e procurar encontrar aplicações práticas.
Em segundo lugar, graças à teoria de Vygotsky introduziu-se na
psicologia contemporânea, de modo direto ou indireto, todo um conjunto de
novos problemas de investigação empírica que se revestem da maior
importância para a educação: investigações sobre a sociabilidade precoce
da criança que tem contribuído para uma melhor compreensão da primeira
infância; as relações entre as interações sociais e o desenvolvimento
cognoscitivo; as atuais investigações sobre a mediação semiótica, o papel
que desempenham os sistemas semióticos no desenvolvimento mental e
desenvolvimento da linguagem; são todas fortemente influenciadas pelas
teses de Vygotsky, entre tantas outras.
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